1969

Um e dois e três
Era uma vez
Um soldadinho
De chumbo não era
Como era
O soldadinho

Um menino lindo
Que nasceu
Num roseiral
O menino lindo
Não nasceu
P’ra fazer mal

Menino cresceu
Já foi à escola
De sacola
Um e dois e três
Já sabe ler
Sabe contar

Menino cresceu
Já aprendeu
A trabalhar
Vai gado guardar
Já vai lavrar
E semear

2.
Um e dois e três
Era uma vez
Um soldadinho
De chumbo não era
Como era
O soldadinho

Menino cresceu
Mas não colheu
De semear
Os senhores da terra
O mandam p’rà guerra
Morrer ou matar

Os senhores da guerra
Não matam
Mandam matar
Os senhores da guerra
Não morrem
Mandam morrer

A guerra é p’ra quem
Nunca aprendeu
A semear
É p’ra quem só quer
Mandar matar
Para roubar

3.
Um e dois e três
Era uma vez
Um soldadinho
De chumbo não era
Como era
O soldadinho

Dancemos meninos
A roda
No roseiral
Que os meninos lindos
Não nascem
P’ra fazer mal

Soldadinho lindo
Era o rei
Da nossa terra
Fugiu para França
P’ra não ir
Morrer na guerra

Soldadinho lindo
Era o rei
Da nossa terra
Fugiu para França
P’ra não ir
Matar na guerra

1971

Onde vais ó caminheiro
Com o teu passo apressado
Onde vais ó caminheiro
Com o teu passo apressado
Vou ao cais do terreiro
Ver o rei Sebastião primeiro
Num lençol amortalhado
Voltou no seu veleiro
No nevoeiro
Sem leme nem gajeiro
E com o casco arrebentado

Onde vais ó caminheiro
Com o teu passo apressado
Com teus olhos em braseiro
E teu rosto afogueado
Vou ao cais do terreiro
Ver o rei Sebastião primeiro
Por alcunha a desejado
Voltou no seu veleiro
No nevoeiro
Sem leme nem gajeiro
Num lençol amortalhado

Onde vais ó caminheiro
Com o teu passo apressado
Porque levas caminheiro
tanta pressa no cajado
Vou ao cais do terreiro
Ver o rei Sebastião primeiro
Num lençol amortalhado
Voltou no seu veleiro
No nevoeiro
Esperado primeiro
E depois desesperado

Onde vais ó caminheiro
Com o teu passo apressado
Que traz ó caminheiro
Esse príncipe encantado
Vou ao cais do terreiro
Ver o rei Sebastião primeiro
À tanto tempo esperado
Voltou no seu veleiro
No nevoeiro
Sem glória nem dinheiro
Num lençol amortalhado

Onde vais ó caminheiro
Com o teu passo apressado
Era príncipe ou sendeiro
Sebastião o desejado
Vou ao cais do terreiro
Ver o rei Sebastião primeiro
Num lençol amortalhado
Era príncipe herdeiro
Nevoeiro
O príncipe agoireiro
o príncipe mal esperado

Onde vais ó caminheiro
Com o teu passo apressado
Porque paras caminheiro
Se é Sebastião finado
Voltou no seu veleiro
No nevoeiro
Sem leme nem gajeiro
Num lençol amortalhado
Vou ao cais do terreiro,
Nevoeiro,
P’ra ficar bem certeiro
De que é morto e enterrado

1971

Mariazinha, deita os olhos pro mar
Pela tardinha, quando a noite espreitar
E no verde das águas sem fundo
Já se perde da esperança do mundo, a afundar, a afundar
Mariazinha, deita os olhos pro mar
Tão pequenina, sem saber que pensar
Vê a roda do mundo girando
E os navios ao longe passando, sem parar, sem parar

Mariazinha, deita os olhos pro mar
Tão quietinha, a chorar, a chorar
Uma fonte de sangue no peito
Uma sombra na boca e um trejeito no olhar, sem parar
Mariazinha, deita os olhos pro mar
Tão caladinha, a chamar, a chamar
Vai pro fundo da noite fria
Numa barca de rendas, vazia, a afundar, sem parar
Mariazinha, com rendas de algas tapada
Tão quietinha
No fundo do mar pousada

1972

Vou andando por terras de França
pela viela da esperança
sempre de mudança
tirando o meu salário
Enquanto o fidalgo enche a pança
o Zé Povinho não descansa
Há sempre uma França
Brasil do operário
Não foi por vontade nem por gosto
que deixei a minha terra
Entre a uva e o mosto
fica sempre tudo neste pé
Vamos indo por terras de França
nossa miragem de abastança
sempre de mudança
roendo a nossa grade
Quando vai o gado prà matança
ao cabo da boa-esperança
Bolas prà bonança
e viva a tempestade
Não foi por vontade nem por gosto …
Vamos indo por terras de França
com a pobreza na lembrança
sempre de mudança
com olhos espantados
Canta o galo e a governança
a tesourinha e a finança
e os cães de faiança
ladrando a finados
Não foi por vontade nem por gosto …
Vamos indo por terras de França
trocando a sorte pela chança
sempre de mudança
suando o pé de meia
Com a alocação e a segurança
com sindicato e com vacança
Há sempre uma França
Numa folha de peia
Não foi por vontade nem por gosto …

1972

Do berço à cova sem parar
caminho fora sempre a andar
Cá vou levando a minha vida
Um minutinho a descansar
A vida inteira a trabalhar
Suor sem conta nem medida

Pra ter um companheiro nesta viagem
Vou meter um pauzinho na engrenagem

Do berço à cova sem vagar
Enxada à terra barco ao mar
A mão e a máquina a compasso

Os bois no campo a lidar
E o serventio a trabalhar
Todos com o mesmo cangaço

Pra ter um companheiro nesta viagem
Vou meter um pauzinho na engrenagem

Do berço à cova Sol a Sol
Por pão, amor e futebol
Dor no sapato e dor na espinha

Canta-se o fado em lá bemol
Morde a sardinha no anzol
E o tubarão segura a linha
Pra ter um companheiro nesta viagem
Vou meter um pauzinho na engrenagem

Do berço à cova sem parar
Caminho fora sempre a andar
Cá vou levando a minha vida

Um minutinho a descansar
A vida inteira a trabalhar
Suor sem conta nem medida

Pra ter um companheiro nesta viagem
Vou meter um pauzinho na engrenagem

1972

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui para aquilo que serei
Foi há tantos anos, foi há dois mil anos
que vi no amor o meu Cristo
que me mostraste um amor imprevisto
que me falaste na pele e no corpo a sorrir
Meus olhos fechados, mudos, espantados
te ouviram como se apagasses
a luz do dia ou a luta de classes
Meus olhos verdes ceguinhos de todo para te servir

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui para aquilo que serei
Filhos e cadilhos, panelas e fundilhos
Meteste as minhas mãos à obra
e encontraste momentos de sobra
para evitar que o meu corpo pensasse na vida
Meus olhos fechados, mudos e cansados
não viam se verso, se prosa
O meu suor era o teu mar de rosas
Meus olhos verdes, janelas de vida fechados por ti

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui para aquilo que serei
Pegas-me na mão e falas do patrão
que te paga um salário de fome
O teu patrão que te rouba o que come
Falas contigo sozinho para desabafar
Meus olhos parados, mudos e cansados
não podem ouvir o que dizes
e fico à espera que me socializes
Meus olhos verdes, boneca privada do teu bem-estar

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui para aquilo que serei
Sou tua criada, boa e dedicada
na praça, na casa e na cama
Tu só vês quando vestes pijama
mas não me ouves se digo que quero existir
Meus olhos cansados ficam acordados
de noite chorando esta sorte
de ser escrava para a vida e para a morte
Meus olhos verdes vermelhos de raiva para te servir

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui para aquilo que serei
A tua vontade, justiça, igualdade
não chega aqui dentro de casa
Eu só te sirvo para a maré vaza
mas eu já sinto a minha maré cheia  a subir
Meus olhos cansados abrem-se espantados
para a vida de que me falavas
para combater contra os donos de escravas
Meus olhos verdes que te vão falar e que tu vais ouvir

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Sei aquilo que fui e que jamais serei

1972

Dentro da margem de dentro
Na raiz e no lamento
Guarda vento e ribanceira
Margem de certa maneira
De fazer uma viagem
De ultrapassar a barreira
Fazer do vento poeira
Da ribanceira barragem

Fora da margem de dentro
Entre o caule e o rebento
Há sempre um pequeno espaço
Entre movimento e passo
Entre passo e movimento
A corda que faz o laço
A força que faz o braço
Acordar o pensamento
Escorrego na lama do meu passado
Do meu passado presente
Mas não fico na lama desnorteado
Vou ao fundo da lama do outro lado
Do outro lado da mente
Do outro lado da gente
Do lado da gente do outro lado
Do lado da gente que vive de frente
Da gente que vive o futuro presente
Fora da margem de fora
Fica a sombra e a demora
A voz do vento é mudança
Muda o escuro fica a lança
Sem medida para agora…

1972

Meu Sant’Antoninho
onde te hei-de pôr
Deixa-me limpar o pó
meu Sant’Antoninho
Dou-te o meu amor
com chazinho e pão-de-lóDeixa a vovó apertar o nó
Deixa a vovó apertar o nóPara voar mais vale ter uma na mão
e um cheirinho a naftalina no salão
E a filha do juiz
põe pozinho no nariz
e sapatos de verniz
para ir à comunhãoMeu Sant’Antoninho
onde te hei-de pôr
fica do lado de cá
meu Sant’Antoninho
meu senhor doutor
assina-me um alvarácom a caneta do teu papá
com a caneta do teu papáFoi a guerra que me deu a ilusão
de subir quando caí no alçapão
e a madrinha do polícia
pisca o olho com malícia
para tentar canonizar
os pretos do JapãoMeu Sant’Antoninho
onde te hei-de pôr
para me lembrar de ti
Meu Sant’Antoninho
dá-me o teu tambor
e um lencinho de organdie uma medalha para pôr aqui
e uma medalha para pôr aquiEu a pôr flores de papel no teu jarrão
e o comboio a apitar na estação
Já não o posso apanhar
fico aqui a descansar
meditando no mistério
da incarnação

1978

Meus amigos… meus amigos: ouvi bem !
Estamos aqui reunidos
mais ou menos divertidos
Alguns cansados, também
das voltas que a vida tem

Se não me levam a mal
vamos agora contar
uma história popular
a tantas outras igual
mas nem por isso banal

Que a vida é tão desigual
tem tantas vidas diferentes
que o empreendimento da gente
já considera anormal
ver a vida tal e qual

Por isso, agora, ouvi bem:
A história que vou contar
ensina-nos a chamar
as coisas pelo seu nome:
um bicho é um bicho, um homem é um homem
Cada um tem sua hora
de verdade e de mentira
e assim como o vento vira
também os ventos de história
não perdem pela demora
Quantas mães há nesta sala ?
Quantos filhos que trabalham ?
Quantos de nós se esfrangalham
na vida para ganhá-la
para perdê-la e salvá-la?
Vamos então começar:
É a história de uma mãe
como a mãe que a gente tem
que está para ali a chorar
as penas do seu penar

1978

As canseiras desta vida

tanta mãe envelhecida
a escovar
a escovar
a jaqueta carcomida
fica um farrapo a brilhar
Cozinheira que se esmera
faz a sopa de miséria
a contar
a contar
os tostões da minha féria
a a panela a protestar
Dás as voltas ao suor
fim do mês é dia 30
e a sexta é depois da quinta
sempre de mal a pior
E cada um se lamenta
que isto assim não pode ser
que esta vida não se aguenta
– o que é que se há-de fazer?
Corta a carne, corta o peixe
não há pão que o preço deixe
a poupar
a poupar
a notinha que se queixa
tão difícil de ganhar
Anda a mãe do passarinho
a acartar o pão para o ninho
a cansar
a cansar…

1978

Se te falta a sopa para o pratose te falta a sopa para o prato
como é que pensas comer ?
Como é que pensas comer
se te falta a sopa para o prato ?Esta vida eu arrenego
e vou virar o bico ao prego
debaixo da minha fome
é o Estado que se encobrePara a sopa do meu menino
Águas paradas não movem moinhosSe o patrão não te dá trabalho
se o patrão não te dá trabalho
onde é que está o salário ?
Onde é que está o salário
Se o patrão não te dá trabalho ?Para acabar o desemprego
vou virar o bico ao prego
Andamos para aqui aflitos
porque o governo é dos ricos
Ponho a miséria a render
Águas paradas não movem moinhosOs fortes riem dos fracos
os fortes riem dos fracos
O que é que vais responder ?
O que é que vais responder
Se os fortes riem dos fracos ?Na unidade é que eu pego
para virar o bico ao prego
Milhões de trabalhadores
são a força que tu fores
Anda para a luta comigo
Águas paradas não movem moinhos

1978

Sempre que se rompe o casaco do povo
aparecem uns doutores que descobrem
que assim não pode ser
Há que achar remédio
seja lá como forVão então negociar com os senhores
enquanto cá fora os trabalhadores
ao frio esperam que eles voltem triunfantes com
um belo remendoRemendo sim pois bem mas onde é que ficou
o casaco todo?

Sempre que gritamos “basta temos fome!”
aparecem uns doutores que descobrem
que assim não pode ser
Há que achar remédio
Seja lá como for

Vão então negociar com os senhores
enquanto cá fora os trabalhadores
cheios de fome até que voltem triunfantes com
Uma bela côdea

Côdea sim pois bem mas onde é que ficou
a carcaça toda?

Nós não precisamos só desses remendos
precisamos do casaco por inteiro
Nós não queremos ficar só com essa côdea
precisamos de comer o pão inteiro

Não nos basta que o patrão nos dê trabalho
precisamos de mandar nas oficinas
nos campos e nas minas
no poder de Estado
Disso é que precisamos

Mas o que é que essa gente tem para oferecer?
Remendos e côdeas!

1978

Qual é coisa, qual é ela
Que é tão simples, tão sensata
Como a sopa na panela
Como um sorriso de prata
Das crianças esquecidas
Qual é coisa qual é ela
Que não sabes o que é
Mas andas sempre atrás dela
Dor a dor, pé ante pé
A brincar às escondidas
Quente, quente…
Companheiro um passo mais
Se és explorado como tantos teus iguais
Hás-de entender como vencer a exploração
Abre os olhos para o futuro olha o fruto já maduro
Na raiz da tua condição
Qual é coisa, qual é ela
Para os ricos horrorosa
Mas para os pobres a mais bela
Para os ricos criminosa
Para os pobres justiça
Qual é a rosa de maio
Que gela o riso nervoso
Do patrão e do lacaio
Não agrada ao cobiçoso
Porque é o fim da cobiça
Quente, quente…
Companheiro um passo mais
Se és explorado como tantos teus iguais
Hás-de entender como vencer a exploração
Abre os olhos para o futuro olha o fruto já maduro
Na raiz da tua condição
Qual é coisa, qual é ela
Que é possível conquistar
Se a gente lutar por ela
Que não é para complicar
Mas sim para resolver
A nova ordem que acaba
Com a diferença de classes entre o que come e o que lavra
Qual é coisa que é tão fácil
E tão difícil de fazer
Quente, quente…
Companheiro um passo mais
Se és explorado como tantos teus iguais
Hás-de entende como vencer a exploração
Abre os olhos para o futuro olha o fruto já maduro
Na raiz da tua condição.

1978


Aprende o ABC
Conquista o ABC
Tens que ajustar as contas com o saber
Três vezes sete são
muitos trunfos na mão
para quem tem a história para escrever
Não percas tempo, aprende, que o sol já lá vem!

Vá! Não demores!
Aprende, que a hora é de tu assumires o comando!

Aprende no serão
Aprende na prisão
Transforma a tua fome num livro aberto
Anda trabalhador
corrige esse doutor
com a tinta vermelha do teu saber
Não percas tempo, aprende, que o sol já lá vem!

Vá! Não demores!
Aprende, que a hora é de tu assumires o comando!

Com os teus olhos vê
a força do ABC
Arma a cabeça antes de armar a mão
Pega num livro e lê
Na conta vê o quê
que és sempre tu que pagas essa lição
Não percas tempo, aprende, que o sol já lá vem!

Vá! Não demores!
Aprende, que a hora é de tu assumires o comando!

Vá! Não demores!
Aprende, que a hora é de tu assumires o comando!

Vá! Não demores!
Aprende, que a hora é de tu assumires o comando!

1978

Eles têm as suas leis, códigos, decretos
Editais e portarias
Eles tem as prisões e as fortalezas
(Sem contar as tutorias)
Têm carcereiros e juízes
Que são pagos com bom dinheiro e estão prontos a tudo

Mas de que lhes servirão tantas instituições
Um minuto antes do fim verão que já estão perdidos, que nada os salvará

Eles têm folhetins, televisão e rádio, os jornais e as revistas
Eles têm os diplomas e o papel selado
(sem contar os estadistas)
Os padres e os senhores doutores
Que são pagos com bom dinheiro e estão prontos a tudo

Mas de que lhes servirão tantas mentiras
Um minuto antes do fim verão que já estão perdidos, que nada os salvará

Eles têm os canhões e as metralhadoras
As chaimites e as granadas
Eles têm capacetes e espingardas
(sem contar as bastonadas)
Têm os polícias e os guardas
Que pagam com pouco dinheiro, mas estão prontos a tudo

Mas de que lhes servirão tamanho arsenal
Um minuto antes do fim verão que já estão perdidos, que nada os salvará