José Mário Branco

Ronda do Soldadinho
em «Ronda do Soldadinho / Mãos ao ar», Single de 1970

Um e dois e três
era uma vez
um soldadinho
De chumbo não era
como era
o soldadinho

Um menino lindo
que nasceu
num roseiral
O menino lindo
não nasceu
para fazer mal

Menino cresceu
já foi à escola
de sacola
Um e dois e três
já sabe ler
sabe contar

Menino cresceu
já aprendeu
a trabalhar
Vai gado guardar
já vai lavrar
e semear

Um e dois e três
era uma vez
um soldadinho
De chumbo não era
como era
o soldadinho

Menino cresceu
mas não colheu
de semear
Os senhores da terra
o mandam para a guerra
morrer ou matar

Os senhores da guerra
não matam
mandam matar
Os senhores da guerra
não morrem
mandam morrer

A guerra é para quem
nunca aprendeu
a semear
É para quem só quer
mandar matar
para roubar

Um e dois e três
era uma vez
um soldadinho
de chumbo não era
como era
o soldadinho

Dancemos meninos
a roda
no roseiral
Que os meninos lindos
não nascem
para fazer mal

Soldadinho lindo
era o rei
da nossa terra
Fugiu para França
para não ir
morrer na guerra

Soldadinho lindo
era o rei
da nossa terra
Fugiu para França
para não ir
matar na guerra

Nevoeiro
em «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», LP de 1971

Onde vais ó caminheiro
com o teu passo apressado
Onde vais ó caminheiro
com o teu passo apressado
Vou ao cais do terreiro
ver o rei Sebastião primeiro
num lençol amortalhado
Voltou no seu veleiro
Nevoeiro
sem leme nem gageiro
e com o casco arrebentado

Onde vais ó caminheiro
com o teu passo apressado
com teus olhos em braseiro
e teu rosto afogueado
Vou ao cais do terreiro
ver o rei Sebastião primeiro
Por alcunha o desejado
Voltou no seu veleiro
Nevoeiro
sem leme nem gageiro
num lençol amortalhado

Onde vais ó caminheiro
com o teu passo apressado
Porque levas caminheiro
tanta pressa no cajado
Vou ao cais do terreiro
ver o rei Sebastião primeiro
num lençol amortalhado
Voltou no seu veleiro
Nevoeiro
Esperado primeiro
e depois desesperado

Onde vais ó caminheiro
com o teu passo apressado
Que traz ó caminheiro
esse príncipe encantado
Vou ao cais do terreiro
ver o rei Sebastião primeiro
Há tanto tempo esperado
Voltou no seu veleiro
Nevoeiro
sem glória nem dinheiro
num lençol amortalhado

Onde vais ó caminheiro
com o teu passo apressado
Era príncipe ou sendeiro
Sebastião o desejado
Vou ao cais do terreiro
ver o rei Sebastião primeiro
num lençol amortalhado
Era príncipe herdeiro
Nevoeiro
O príncipe agoireiro
o príncipe mal esperado

Onde vais ó caminheiro
com o teu passo apressado
Porque paras caminheiro
se é Sebastião finado
Voltou no seu veleiro
Nevoeiro
Leme nem gageiro
num lençol amortalhado
Vou ao cais do terreiro,
Nevoeiro
P’ra ficar bem certeiro
De que é morto e enterrado

Mariazinha
em «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», LP de 1971

Mariazinha
deita os olhos para o mar
Pela tardinha
quando a noite espreitar
E no verde das águas sem fundo
já se perde da esperança do mundo
a afundar
a afundar

Mariazinha
deita os olhos para o mar
Tão pequenina
sem saber que pensar
Vê a roda do mundo girando
E os navios ao longe passando
sem parar
sem parar

Mariazinha
deita os olhos para o mar
Tão quietinha
a chorar, a chorar
Uma fonte de sangue no peito
Uma sombra na boca e um trejeito
no olhar
sem parar

Mariazinha, deita os olhos para o mar
Tão caladinha
a chamar, a chamar
Vai para o fundo da noite fria
Numa barca de rendas vazia
a afundar
sem parar

Mariazinha
com rendas de algas tapada
tão quietinha
no fundo do mar pousada

Por terras de França
em «Margem de certa maneira», LP de 1972

Vou andando por terras de França
pela viela da esperança
sempre de mudança
tirando o meu salário

Enquanto o fidalgo enche a pança
o Zé Povinho não descansa
Há sempre uma França
Brasil do operário

Não foi por vontade nem por gosto
que deixei a minha terra
entre a uva e o mosto
fica sempre tudo neste pé

Vamos indo por terras de França
nossa miragem de abastança
sempre de mudança
roendo a nossa grade

Quando vai o gado para a matança
ao Cabo da Boa-Esperança
bolas para a bonança
e viva a tempestade

Não foi por vontade nem por gosto
que deixei a minha terra
entre a uva e o mosto
fica sempre tudo neste pé

Vamos indo por terras de França
com a pobreza na lembrança
sempre de mudança
com olhos espantados

Canta o galo e a governança
a tesourinha e a finança
e os cães de faiança
ladrando afinados

Não foi por vontade nem por gosto
que deixei a minha terra
entre a uva e o mosto
fica sempre tudo neste pé

Vamos indo por terras de França
trocando a sorte pela chança
sempre de mudança
suando o pé de meia

Com a alocação e a segurança
com sindicato e com vacança
Há sempre uma França
Numa folha de peia

Não foi por vontade nem por gosto
que deixei a minha terra
entre a uva e o mosto
fica sempre tudo neste pé

Não foi por vontade nem por gosto
que deixei a minha terra
entre a uva e o mosto
fica sempre tudo neste pé

Engrenagem
em «Margem de certa maneira», LP de 1972

Do berço à cova sem parar
caminho fora sempre a andar
Cá vou levando a minha vida

Um minutinho a descansar
A vida inteira a trabalhar
Suar sem conta nem medida

Para ter um companheiro nesta viagem
vou meter um pauzinho na engrenagem

Do berço à cova sem vagar
Enxada à terra barco ao mar
A mão e a máquina ao compasso

Os bois no campo a lidar
E o serventio a trabalhar
Todos com o mesmo cangaço

Para ter um companheiro nesta viagem
vou meter um pauzinho na engrenagem

Do berço à cova sol a sol
por pão, amor e futebol
Dor no sapato e dor na espinha

Canta-se o fado em lá bemol
Morde a sardinha no anzol
E o tubarão segura a linha

Para ter um companheiro nesta viagem
Vou meter um pauzinho na engrenagem

Do berço à cova sem parar
caminho fora sempre a andar
Cá vou levando a minha vida

Um minutinho a descansar
A vida inteira a trabalhar
suar sem conta nem medida

Para ter um companheiro nesta viagem
vou meter um pauzinho na engrenagem

Aqui dentro de casa
em «Margem de certa maneira, LP de 1972

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui para aquilo que serei

Foi há tantos anos, foi há dois mil anos que vi no amor o meu Cristo
que me mostraste um amor imprevisto
que me falaste na pele e no corpo a sorrir
Meus olhos fechados, mudos, espantados
te ouviram como se apagasses
a luz do dia ou a luta de classes
Meus olhos verdes, ceguinhos de todo
para te servir

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui para aquilo que serei

Filhos e cadilhos, panelas e fundilhos
meteste as minhas mãos à obra
e encontraste argumentos de sobra
para evitar que o meu corpo pensasse na vida
Meus olhos fechados, mudos e cansados
não viam se verso, se prosa
O meu suor era o teu mar de rosas
Meus olhos verdes, janelas de vida, fechados por ti

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui para aquilo que serei

Pegas-me na mão e falas do patrão
que te paga um salário de fome
Do teu patrão que te rouba o que come
Falas contigo sozinho para desabafar
Meus olhos parados, mudos e cansados
não podem ouvir o que dizes
e fico à espera que me socializes
Meus olhos verdes, boneca privada do teu bem-estar

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui para aquilo que serei

Sou tua criada, boa e dedicada
na praça, na casa e na cama
Tu só me vês quando vestes pijama
mas não me ouves se digo que quero existir
Meus olhos cansados ficam acordados
de noite chorando esta sorte
de ser escrava para a vida e para a morte
Meus olhos verdes vermelhos de raiva para te servir

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui para aquilo que serei

A tua vontade, justiça e igualdade
não chega aqui dentro de casa
Eu só te sirvo para a maré vaza
mas eu já sinto a minha maré cheia  a subir
Meus olhos cansados abrem-se espantados
para a vida de que me falavas
para combater contra os donos de escravas
Meus olhos verdes que te vão falar e que tu vais ouvir

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Sei aquilo que fui e que jamais serei

Margem de certa maneira
em «Margem de certa maneira», LP de 1972

Dentro da margem de dentro
na raiz e no lamento
Guarda vento e ribanceira
margem de certa maneira
de fazer uma viagem
de ultrapassar a barreira
fazer do vento poeira
da ribanceira barragem

Fora da margem de dentro
entre o caule e o lamento
há sempre um pequeno espaço
entre movimento e passo
Entre passo e movimento
a corda que faz o laço
a força que faz o braço
acordar o pensamento

Escorrego na lama do meu passado
do meu passado presente
mas não fico na lama desnorteado
Vou ao fundo da lama do outro lado
do outro lado da mente
do outro lado da gente
do lado da gente do outro lado
do lado da gente que vive de frente
da gente que vive o futuro presente

Fora da margem de fora
fica a sombra e a demora
A voz do vento é mudança
muda o escudo, fica a lança

Sem medida para agora
saltam pulgas na balança
Pára o vento, vira a dança
no espaço de uma hora

Dentro da margem de fora
não há sombra na demora
Estatelada na História
fica a margem divisória

E no meio da viagem
a voz do vento é memória
de acreditar na vitória
de rebentar a barragem

Escorregas na lama do teu passado
do teu passado presente
mas não ficas na lama desnorteado
Vais ao fundo da lama do outro lado
Do outro lado da mente
do outro lado da gente
do lado da gente do outro lado
do lado da gente que vive de frente
da gente que vive o futuro presente

Sant'Antoninho
em «Margem de certa maneira», LP de 1972

Meu Sant’Antoninho
onde te hei-de pôr
deixa-me limpar o pó

Meu Sant’Antoninho
dou-te o meu amor
com chazinho e pão-de-ló
deixa a vovó apertar o nó

Deixa a vovó apertar o nó

Para voar mais vale ter uma na mão
e um cheirinho a naftalina no salão
E a filha do juiz
põe pozinho no nariz
e sapatos de verniz
para ir à comunhão

Meu Sant’Antoninho
onde te hei-de pôr
fica do lado de cá

Meu Sant’Antoninho
meu senhor doutor
assina-me um alvará
com a caneta do teu papá

Com a caneta do teu papá

Foi a guerra que me deu a ilusão
de subir quando caí no alçapão
e a madrinha do polícia
pisca o olho com malícia
para tentar canonizar
os pretos do Japão

Meu Sant’Antoninho
onde te hei-de pôr
para me lembrar de ti

Meu Sant’Antoninho
dá-me o teu tambor
e um lencinho de organdi
e uma medalha para pôr aqui

E uma medalha para pôr aqui

Eu a pôr flores de papel no teu jarrão
e o comboio a apitar na estação
Já não o posso apanhar
fico aqui a descansar
meditando no mistério
da incarnação

Prólogo
em «A Mãe», LP de 1978

Meus senhores, vamos agora contar
uma história que não é para chorar

Abrir os olhos à vida
Não há razão proibida
de pensar

Quantas mães estão aqui para me escutar ?
Quanto amor para aprender e desejar?

A semente perde a calma
É tão lindo ver as almas
a acordar

Versão não publicada em disco:

Meus amigos… meus amigos: ouvi bem !
Estamos aqui reunidos
mais ou menos divertidos
Alguns cansados, também
das voltas que a vida tem
Se não me levam a mal
vamos agora contar
uma história popular
a tantas outras igual
mas nem por isso banal
Que a vida é tão desigual
tem tantas vidas diferentes
que o empreendimento da gente
já considera anormal
ver a vida tal e qual

Por isso, agora, ouvi bem:
A história que vou contar
ensina-nos a chamar
as coisas pelo seu nome:

um bicho é um bicho, um homem é um homem

Cada um tem sua hora
de verdade e de mentira
e assim como o vento vira
também os ventos de história
não perdem pela demora

Quantas mães há nesta sala ?
Quantos filhos que trabalham ?
Quantos de nós se esfrangalham
na vida para ganhá-la
para perdê-la e salvá-la?

Vamos então começar:
É a história de uma mãe
como a mãe que a gente tem
que está para ali a chorar
as penas do seu penar

As canseiras desta vida
em «A Mãe», LP de 1978

As canseiras desta vida
tanta mãe envelhecida
a escovar
a escovar
a jaqueta carcomida
fica um farrapo a brilhar

Cozinheira que se esmera
faz a sopa de miséria
a contar
a contar
os tostões da minha féria
a a panela a protestar

Dás as voltas ao suor
fim do mês é dia trinta
e a sexta é depois da quinta
sempre de mal a pior

E cada um se lamenta
que isto assim não pode ser
que esta vida não se aguenta
O que é que se há-de fazer?

Corta a carne, corta o peixe
não há pão que o preço deixe
a poupar
a poupar
a notinha que se queixa
tão difícil de ganhar

Anda a mãe do passarinho
a acartar o pão para o ninho
a cansar
a cansar
com a lama do caminho
só se sabe lamentar

Dás as voltas ao suor
fim do mês é dia trinta
e a sexta é depois da quinta
sempre de mal a pior

E cada um se lamenta
que isto assim não pode ser
que esta vida não se aguenta
O que é que se há-de fazer?

É mentira, é verdade
vai o tempo, vem a idade
a esticar
a esticar
a ilusão de liberdade
para morrer sem acordar

É na morte ou é na vida
que está a chave escondida
do portão
do portão
deste beco sem saída
Qual será a solução?

Dás as voltas ao suor
fim do mês é dia trinta
e a sexta é depois da quinta
sempre de mal a pior

E cada um se lamenta
que isto assim não pode ser
que esta vida não se aguenta
O que é que se há-de fazer?

Águas paradas não movem moinhos
em «A Mãe», LP de 1978

Não gosto nada de ver o meu filho na companhia desta gente. Desinquietam-no e ainda acabam por metê-lo nalguma. Está sempre a ler livros e não faz a vida dos rapazes da idade dele. É tão diferente do pai. Quando entrou para a fábrica ficou satisfeito por ter trabalho. Ganhava pouco. Neste último ano passou a ganhar cada vez menos. Se continuam a fazer descontos prefiro ser eu a deixar de comer. Que posso eu fazer viúva de um operário e mãe de um operário ? Mas preocupa-me que leia estes livros e que em lugar de aproveitar a noite vá a reuniões que só servem para desinquietá-lo cada vez mais. Ainda acaba por perder o emprego.

Se te falta a sopa para o prato
se te falta a sopa para o prato
como é que pensas comer ?
Como é que pensas comer
se te falta a sopa para o prato ?

Esta vida eu arrenego
e vou virar o bico ao prego
Debaixo da minha fome
é o Estado que se encobre

Para a sopa do meu menino
águas paradas não movem moinhos

Se o patrão não te dá trabalho
se o patrão não te dá trabalho
onde é que está o salário ?
Onde é que está o salário
se o patrão não te dá trabalho ?

Para acabar o desemprego
vou virar o bico ao prego
Andamos para aqui aflitos
porque o governo é dos ricos

Ponho a miséria a render
águas paradas não movem moinhos

Os fortes riem dos fracos
os fortes riem dos fracos
O que é que vais responder ?
O que é que vais responder
se os fortes riem dos fracos ?

Na unidade é que eu pego
para virar o bico ao prego
Milhões de trabalhadores
são a força que tu fores

Anda para a luta comigo
Águas paradas não movem moinhos

Remendos e côdeas
em «A Mãe», LP de 1978

Não acho bem que distribuam folhetos destes na fábrica enquanto duram as negociações. Aí vem o Alves. Sempre quero ver o que ele conseguiu.
Colegas, chegámos a um acordo.
Que espécie de acordo ? Ganhámos ?
Apresentámos os nossos cálculos ao patrão e demonstrámos-lhe que com a redução dos nossos oitocentos salários ele ia meter ao bolso duas mil notas por ano. Tínhamos de impedi-lo, custasse o que custasse, e conseguimo-lo, após uma batalha de quatro horas.
Ganhámos ou não ?
Colegas, a lixeira à entrada da fábrica representa um perigo constante.
Ganhámos ou não ?

Sempre que se rompe o casaco do pobre
aparecem uns doutores que descobrem
que assim não pode ser
há que achar remédio seja lá como for

Vão então negociar com os senhores
enquanto cá fora os trabalhadores
ao frio esperam que eles voltem triunfantes
com um belo remendo

Remendo sim pois bem mas onde é que ficou
o casaco todo?

Sempre que gritamos “basta, temos fome!”
aparecem uns doutores que descobrem
que assim não pode ser
há que achar remédio seja lá como for

Vão então negociar com os senhores
enquanto cá fora os trabalhadores
cheios de fome até que voltam triunfantes
com uma bela côdea

Côdea sim pois bem mas onde é que ficou
a carcaça toda?

Nós não precisamos só desse remendo
precisamos do casaco por inteiro

Nós não queremos ficar só com essa côdea
precisamos de comer o pão inteiro

Não nos basta que o patrão nos dê trabalho
precisamos de mandar nas oficinas, nos campos e nas minas
no poder de Estado
Disso é que precisamos

Mas o que é que essa gente tem para oferecer?
Remendos e côdeas

1º de Maio
em «A Mãe», LP de 1978

Quando nós, operários da fábrica Arial, chegámos ao mercado, encontrámo-nos com os manifestantes das outras fábricas, que já eram muitos milhares. Levávamos cartazes que diziam: Operários, apoiai a nossa luta contra a redução dos salários! Operários, uni-vos! Desfilávamos calma e ordeiramente. Cantava-se A Internacional e outros hinos revolucionários. A nossa fábrica marchava directamente atrás da grande bandeira vermelha. Atrás de mim seguia a minha mãe. Quando foram buscar-nos de manhã cedo, ela saiu da cozinha já pronta, e quando lhe perguntaram onde ia, respondeu: Vou com vocês. Tal como ela, seguiam-nos muitos outros, que o rigor do inverno, a redução dos salários e o nosso trabalho de agitação tinham trazido até nós. Antes de chegarmos à avenida, cruzámos alguns polícias. Não víamos soldados. Mas desde a esquina da avenida com a praça, deparou-se-nos subitamente um duplo cordão de soldados. Ao avistarem a nossa bandeira e os nossos cartazes, houve uma voz que gritou: Atenção! Dispersar, ou disparamos! E fora com a bandeira! Sustivemos a marcha. Mas como a retaguarda não parou, foi impossível irmos a tempo de conter o avanço. E agora já havia tiros. Quando os primeiros manifestantes começaram a cair estabeleceu-se a confusão geral. Muitos não acreditavam no que viam. Depois os soldados carregavam sobre a multidão. A minha mãe decidira acompanhar-nos para demonstrar o seu apoio à causa dos trabalhadores. Os manifestantes eram pessoas honestas, dizia. Tinham trabalhado a vida inteira. É claro que também havia desesperados que o desemprego tornara capazes de tudo, e também muita gente faminta demasiado fraca para poder defender-se. Continuávamos à frente e não dispersámos quando os tiros começaram. Tínhamos a nossa bandeira. Era o Luís que a levava e não tencionávamos largá-la. Não trocáramos uma só palavra, mas pareceu-nos suficientemente importante que nos atingissem e abatessem precisamente a nós. Que nos arrancassem a bandeira. A nossa. A vermelha. Queríamos que todos os trabalhadores vissem quem somos e por quem somos, reconhecessem que somos os trabalhadores. Os que nos atacavam portavam-se como feras. Precisavam de ganhar a vida e os patrões pagavam-lhes para isso. Mas todos acabariam por compreendê-lo. Por isso a nossa bandeira, a bandeira vermelha, tinha de ser levantada bem alto, à vista dos soldados e de todos os outros. E aos que não viram é preciso contá-lo. Hoje ainda, ou amanhã, ou nos próximos anos, até ela voltar a ser vista, pois julgamos saber, e muitos já o sabem, que ela voltará sempre a ser vista, até ao dia em que tudo será totalmente transformado. E esse dia aproxima-se. A nossa bandeira, a mais perigosa para todos os exploradores e todos os tiranos. A mais implacável. Mas para nós, trabalhadores, a bandeira de combate decisivo. Por isso, voltareis sempre a vê-la, com alegria ou ódio, conforme a vossa opção nesta luta, que só poderá terminar com a vitória completa de todos os oprimidos de todos os países do mundo. Mas nesse dia era o operário Luís que a levava. Há vinte anos que pertence ao movimento. Foi um dos primeiros a divulgar na fábrica os ideais revolucionários: Lutamos por salários e por melhores condições de trabalho. Negociou várias vezes com os patrões em defesa dos interesses dos seus colegas. A princípio houve fraca disponibilidade, mas depois admitiu que houvesse um caminho mais fácil. Se a nossa influência aumentasse, caber-nos-ia a nós, também, decidir. Viu, porém, que se enganou. Ei-lo aqui, com milhares de outros atrás, enfrentando como sempre a violência. Entregamos ou não a bandeira, perguntou. Não, Luís, não entregues. É inútil negociar, dissemos. E a mãe disse-lhe: Não há razão para pidesco. Nada poderá suceder-te. A polícia não pode ter nada contra uma manifestação pacífica. E nesse instante o oficial da polícia gritou: Entreguem a bandeira! E o Luís olhou para trás, e viu de viés a bandeira ao pé dos cartazes e nos cartazes as nossas soluções, e atrás dos cartazes grevistas da nossa fábrica. E nós ficámos a ver o que ele ali junto a nós, um de nós, faria com a bandeira. Vinte anos de movimento operário-revolucionário. No dia primeiro de Maio às onze horas da manhã, desde o meio da avenida, no momento decisivo disse: Não a dou! Não haverá negociações. Muito bem, Luís, é assim mesmo! Agora está tudo em ordem! Mas tombou à frente com a cara no chão pois eles já o tinham abatido. E corremos alguns quatro ou cinco a segurar na bandeira. Mas ela caíra ao lado da minha mãe. Então a minha mãe, a serena, a pacífica, a camarada, curvou-se, pegou na bandeira. Entreguem-me a bandeira, disse ela. Entreguem-me a bandeira. Eu levo-a. As coisas têm que mudar.

Qual é coisa, qual é ela (Elogio do Comunismo)
em «A Mãe», LP de 1978

Mas afinal o que é o comunismo ?

Qual é coisa, qual é ela, que é tão simples, tão sensata
como a sopa na panela
como um sorriso de prata
das crianças esquecidas ?

Qual é coisa, qual é ela, que não sabes o que é
mas andas sempre atrás dela
dor a dor, pé ante pé
a jogar às escondidas ?

Quente, quente, companheiro um passo mais
se és explorado como tantos teus iguais
hás-de entender como vencer a exploração
Abre os olhos para o futuro olha o fruto já maduro
na raiz da tua condição

Qual é coisa, qual é ela, para os ricos horrorosa
mas para os pobres a mais bela
Para os ricos criminosa
e para os pobres justiça ?

Qual é a rosa de maio que gela o riso nervoso
do patrão e do lacaio ?
Não agrada ao cobiçoso
porque é o fim da cobiça

Quente, quente, companheiro um passo mais
Se és explorado como tantos teus iguais
hás-de entender como vencer a exploração
Abre os olhos para o futuro olha o fruto já maduro
na raiz da tua condição

Qual é coisa, qual é ela, que é possível conquistar se a gente lutar por ela
que não é para complicar mas sim para resolver ?
A nova ordem que acaba
com a diferença de classe entre o que come e o que lavra

Qual é coisa que é tão fácil tão difícil de fazer ?
Quente, quente, companheiro um passo mais
se és explorado como tantos teus iguais hás-de entender como vencer a exploração
Abre os olhos para o futuro olha o fruto já maduro
Na raiz da tua condição

ABC (Elogio da aprendizagem)
em «A Mãe», LP de 1978

Querem, portanto, que lhes ensine a ler. Francamente não vejo de que possa servir-lhes e já não estão em idade para isso. Mas vou tentar, em atenção à senhora Maria. Há gerações e gerações que vêm acumulando conhecimentos sobre conhecimentos. A técnica nunca esteve tão avançada. E para quê ? A confusão nunca chegou a tanto. Oponha-se à ciência.
– Diga-me lá como é que se escreve luta de classes ?
– Mas não é a ciência que ajuda, é a bondade.
Se não precisa da sua ciência passe-a para nós.

Aprende o ABC
Conquista o ABC
Tens que ajustar as contas com o saber
Três vezes sete são
muitos trunfos na mão
Para quem tem a história para escrever
Não percas tempo aprende que o sol já lá vem!

Vá ! Não demores !
Aprende, que a hora é de tu assumires o comando

Aprende no serão
Aprende na prisão
Transforma a tua fome num livro aberto
Anda trabalhador
corrige esse doutor
com a tinta vermelha do teu saber
Não percas tempo aprende que o sol já lá vem!

Vá ! Não demores !
Aprende, que a hora é de tu assumires o comando

Com os teus olhos vê
a força do ABC
arma a cabeça antes de armar a mão
pega no livro e lê
Na conta vê o que quê
que és sempre tu que pagas essa lição
Não percas tempo aprende que o sol já lá vem

Vá ! Não demores !
Aprende, que a hora é de tu assumires o comando

Vá ! Não demores !
Aprende, que a hora é de tu assumires o comando

Vá ! Não demores !
Aprende, que a hora é de tu assumires o comando

Os meninos de amanhã (Elogio do revolucionário)
em «A Mãe», LP de 1978

– O Carlos tem-lhe escrito?
– Não, ando muito inquieta por sua causa. O que mais me preocupa é não saber o que está a fazer ou o que lhe estão a fazer. Nem sequer sei se lhe dão de comer o suficiente e se não o deixam passar frio. Mas sinto um grande orgulho nele. Tenho sorte. O meu filho é útil.

Os meninos de amanhã
vão acordar num mundo novo
com a estrela da manhã
a iluminar o bem do povo

E nos livros da escola
ouvirão contar
quantas lutas se travaram
para a vida mudar

Os meninos saberão
o amor dos revolucionários
que lutaram sem descanso
para mudar este fadário

E as memórias vigilantes
saberão contar
essas vidas que se deram
sem desanimar

Há tanta gente virada para trás
gente do menos mal
e do tanto-faz
Mas o amor em que eu estou a pensar
anda remando contra a maré
a desinquietar

Os meninos de amanhã
verão o corpo dessa ideia
que perturba o rame-rame
com a revolta que semeia

E ao colo da liberdade
ouvirão contar
o pão-pão e o queijo-queijo
que te anda a faltar

Vão encontrar o tesouro
dentro do punho fechado
do discreto combatente
que está aí mesmo a teu lado

E das bocas saciadas
ouvirão contar
os porquês insatisfeitos
que o fazem lutar

Há tanta gente virada para trás
gente do menos mal
e do tanto-faz
Mas o amor em que eu estou a pensar
anda remando contra a maré
a desinquietar

Nada os salvará
em «A Mãe», LP de 1978

Eles têm as suas leis, códigos, decretos
editais e portarias
Eles têm as prisões e as fortalezas
sem contar as tutorias
Têm carcereiros e juízes
Que são pagos com bom dinheiro
e estão prontos a tudo
Mas de que lhes servirão
tantas instituições?
Um minuto antes do fim
verão que já estão perdidos
que nada os salvará
Eles têm folhetins, televisão e rádio
os jornais e as revistas
Eles têm os diplomas e o papel selado
sem contar os estadistas
Os padres e os senhores doutores
Que são pagos com bom dinheiro
e estão prontos a tudo
Mas de que lhes servirão
tantas mentiras
Um minuto antes do fim
verão que já estão perdidos
que nada os salvará
Eles têm os canhões e as metralhadoras
as chaimites e as granadas
Eles têm capacetes e espingardas
sem contar as bastonadas
Têm os polícias e os guardas
que pagam com pouco dinheiro
mas estão prontos a tudo
Mas de que lhes servirá
tamanho arsenal ?
Um minuto antes do fim
verão que já estão perdidos
que nada os salvará

Camarada Maria Rodrigues
em «A Mãe», LP de 1978

Ora aqui temos a nossa amiga
Camarada Maria Rodrigues
sempre firme na sua luta
prestável e astuta
passo-a-passo, dia-a-dia
indispensável a nossa Maria

A Maria nunca está sozinha
nesta grande luta miudinha
todas as Marias do mundo
exército profundo
lutadores do dia-a-dia
indispensáveis como esta Maria

O Terceiro Amigo
em «A Mãe», LP de 1978

Quantas mães perdem os filhos
seja na morte ou na vida
Mas eu fico bem servida, ai, meu rico filho
que o tenho sempre comigo
graças ao Terceiro Amigo

Saiu-me o filho do corpo
escolheu o seu caminho
Mas eu não fiquei sozinha, ai, meu rico filho
que estou presa ao teu umbigo
graças ao Terceiro Amigo

Sentados a conversar
pais e filhos entretidos
Mas nós somos mais unidos, meu rico filho
O que dizes e o que eu digo
graças ao Terceiro Amigo

É tão grande esta família
tantas mãos num só olhar
Nada nos vais separar, ai, meu rico filho
somos do mesmo partido
nosso bom Terceiro Amigo

Cantiga de alevantar
em «A Mãe», LP de 1978

A mãe está doente desde que o filho morreu. Continua a ocupar-se do trabalho caseiro, mas o outro trabalho a que costumava dedicar-se, esse abandonou-o. E, afinal, o que podemos nós fazer contra o Estado e as grandes potências ? Eles não descansarão enquanto não nos destruírem completamente.

Levanta a cabeça, oh!
Levanta, camarada, ai alevanta, oh!
Ai, tu pareces tão cansadinha, oh!
Tão parada, tão sozinha, oh !
que até parece que já nem te conheço !

Levanta a cabeça, oh!
Levanta, camarada, ai alevanta, oh !
Vai às tripas, vai às tripas, camarada !
Vai à barriga vazia, vai à tua linda ideia
e à razão e à alegria

Pega na forcinha pouca
põe ao sol e deixa cozer
e anda lavrar o teu campo de alegria
Levanta agora, ai alevanta, oh!
Levanta, camarada, oh!

E olha, vê bem, limpa a vista
e olha a tua força pouca
que é como a semente pequenina
que fecunda o campo inteiro
e há-de encher o celeiro

E olha a pedrinha pequena, lá no meio da muralha
e olha a pedrinha, ai pedrinha, oh!
Levanta, acima, acima, alevanta oh!
Levanta a pedrinha, pedra grande, oh!
E anda mulher, cresce sempre, oh!

Pedrinha, oh!
Levanta a pedrinha, oh!
Tapa o buraco aberto por onde o inimigo quer furar !
Levanta, oh!
Pedrinha, oh!

Eu, Maria Rodrigues, viúva de um operário e mãe de um operário, tenho ainda tanto que fazer. Quando aqui há uns anos vi que o meu filho já não podia matar a fome, inquietei-me e comecei por me lamentar. As coisas continuaram na mesma. Depois ajudei-o na luta pelo salário. Nessa altura fazíamos pequenas greves. Hoje lutamos pelo poder de Estado. Muitos dizem que devemos dar-nos por satisfeitos com o que temos, que o poder dos opressores está bem seguro, que acabaremos sempre por ficar derrotados, que aquilo que nós queremos não virá nunca. Aquele que está vivo não diga nunca, nunca.

E agora, alevanta, agora, oh!
Levanta agora, camarada, oh!
Levanta agora, pedrinha, oh!
E agora levanta a pedrinha, oh!
Levanta a pedrinha, camarada !
E agora levanta a pedrinha, oh!

Aquele que está vivo que não diga nunca nunca
em «A Mãe», LP de 1978

Aquele que está vivo
não diga nunca nunca
pois o que parece certo
Nunca é definitivo

Aquele que se cansa
não diga nunca nunca
que por entre a noite escura
já o dia é uma criança

Ontem, hoje e amanhã
sempre o sol renascerá
para iluminar a multidão que se levanta!
Anda!

Não atrases o futuro, tira o nunca da memória
Não pares de lutar
Pedra a pedra faz o muro crescer com a vitória
que o mundo há-de mudar !

Aquele que está vivo
não diga nunca nunca
pois aquele que não luta
é de si mesmo cativo

A vida só não muda
se tu ficares parado
esperando a morte lenta
com o nunca atravessado

Ontem, hoje e amanhã
Sempre o sol renascerá
Para iluminar a multidão que se levanta!
Anda!

Não atrases o futuro, tira o nunca da memória
Não pares de lutar
Pedra a pedra faz o muro crescer com a vitória
que o mundo há-de mudar !

As coisas são as coisas
e são o seu contrário
O destino que diz nunca
é o conto do vigário

O nunca é agora
e agora é a luta
contra o hoje em que te explora
o senhor que te desfruta

Ontem, hoje e amanhã
sempre o sol renascerá
Para iluminar a multidão que se levanta!
Anda!

Não atrases o futuro, tira o nunca da memória
Não pares de lutar
Pedra a pedra faz o muro crescer com a vitória
que o mundo há-de mudar !

Eu vi este povo a lutar
em «A Confederação», LP (banda sonora) de 1978

Eu vi este povo a lutar
para a sua exploração acabar
sete rios de multidão
que levavam a História na mão

Sob as águas calmas
um vulcão de fogo
toda a terra treme
nas vozes deste povo

Mesmo no silêncio
sabemos cantar
povo por extenso
é unidade popular

Somos sete rios
rios de certeza
vamos lá cantando
no fragor da correnteza

Eu vi este povo a lutar
para a sua exploração acabar
sete rios de multidão
que levavam a História na mão

A fruta está podre
já não se remenda
só bem cozidinha
no lume da contenda

Nós queremos trabalho
e casa decente
e carne do talho
e pão para toda a gente

Ai, meus ricos filhos
tantos nove meses
saem do meu ventre
para a pança dos burgueses

Eu vi este povo a lutar
para a sua exploração acabar
sete rios de multidão
que levavam a História na mão

Alça, meu menino
vê se te arrebitas
que este peixe podre
só é bom para os parasitas

Só a nosso mando
é que há liberdade
vamos lá lutando
para mudar a sociedade

Bandeira vermelha
bem alevantada
Ai, minha senhora
que linda desfilada

Eu vi este povo a lutar
para a sua exploração acabar
Sete rios de multidão
que levavam a História na mão

Eu vi este povo a lutar
para a sua exploração acabar
Sete rios de multidão
que levavam a História na mão

Ai, meu trigo lindo
em «A Confederação», LP (banda sonora) de 1978

Eu vi este povo a lutar
para a sua exploração acabar

Sinto lágrimas na garganta
e a morte no olhar das crianças

Ai meu trigo lindo, meu trigo trigueiro
visam-te as sementes os senhores do dinheiro

Lágrimas de sangue, boca de secura
levanta a cabeça que esta luta é muito dura

Lágrimas de fogo, garras de agonia
morrer ou matar, é a lei da burguesia

Operários e camponeses
em «A Confederação», LP (banda sonora) de 1978

Venham os operários, lá das oficinas
os da construção, dos estaleiros e das minas

Somos as toupeiras do amanhecer
nossa escravidão é para o rico enriquecer

Olhos de silêncio e risco de morte
anda cá irmão que eu arrenego desta sorte

Eu vi este povo a lutar
para a sua exploração acabar

Temos um martelo na mão
para abater os muros desta prisão

Somos jornaleiros e lavradores pobres
regamos a terra com miséria e com suores

E o senhor cacique fica regalado
de paredes meias com as rezas do abade

Monda, mondadeira, as ervas daninhas
deita a sementeira contra a peste das campinas

Eu vi este povo a lutar
para a sua exploração acabar

Temos as enxadas na mão
para abater os muros desta prisão

O Ali Babá dos quarenta ladrões
não nos vencerá porque os pobres são milhões

Somos sete rios, rios de mãos dadas
vamos lá cantando que ainda a luta vai no adro

Quando o povo avança, em grande unidade
treme logo a pança do burguês com ansiedade

Eu vi este povo a lutar
para a sua exploração acabar

Vamos todos em unidade
conquistar o nosso Abril de verdade

Quando a raiva se faz canção
quando o povo se faz canhão
estremece a burguesia

Dizia a Maria da Fonte
Pela Santa Liberdade
não se perca nem um dia

Moncorvo, torre e gente
em «Gente do Norte», Single (banda sonora) de 1978

Foi das pedras
foi das pedras e das águas
do calor, do rosmaninho
foi da torga, foi das fráguas
que nasceu
este império pequenino

Foi do sol
foi do sul e foi do gelo
foi do sonho e da roda
do Picôto e do Covêlo
que nasceu
este império à nossa moda

Moncorvo, torre e gente
pobre-rica, rica-pobre
nobre-serva, serva-nobre
entre passado e presente
entre presente e ausente

Moncorvo, torre e gente
pobre-rica, rica-pobre
nobre-serva, serva-nobre
entre passado e presente
entre presente e ausente

Foi do calo, da enxada
e da enxurrada
foi da pedra descoberta
da terra desempedrada
que nasceu
esta mina já deserta

Foi do roxo
foi do arrojo e do Douro
do tesouro de caliça
foi do velho e do vindouro
que nasceu
o sangue da Vilariça

Moncorvo, torre e gente
pobre-rica, rica-pobre
nobre-serva, serva-nobre
entre passado e presente
entre presente e ausente

Moncorvo, torre e gente
pobre-rica, rica-pobre
nobre-serva, serva-nobre
entre passado e presente
entre presente e ausente

Moncorvo, torre e gente
pobre-rica, rica-pobre
nobre-serva, serva-nobre
entre passado e presente
entre presente e ausente

Moncorvo, torre e gente
pobre-rica, rica-pobre
nobre-serva, serva-nobre
entre passado e presente
entre presente e ausente

Cantar de viúva de emigrante
em «Gente do norte», Single (banda sonora) de 1978

A semente do meu trigo
está noutra terra a criar
Este chão que é meu amigo
está como eu a esperar

E o meu lindo sol de Abril
que anda a brilhar deste lado
traz o meu amor contigo
que está tão longe emigrado

Tanto velho, tanto ninho
tanta mulher sem amor
Não há pão para o meu carinho
mas há para tanto doutor

Travessia do deserto
em «Ser solidário», LP de 1982

Que caminho tão longo
que viagem tão comprida
que deserto tão grande
sem fronteira nem medida

Águas do pensamento
vinde regar o sustento
da minha vida

Este peso calado
queima o sol por trás do monte
queima o tempo parado
queima o rio com a ponte

Águas dos meus cansaços
semeai os meus passos
como uma fonte

Ai que sede tão funda
ai que fome tão antiga
Quantas noites se perdem
no amor de cada espiga ?

Ventre calmo da terra
leva-me na tua guerra
se és minha amiga

Que caminho tão longo
que viagem tão comprida
que deserto tão grande
sem fronteira nem medida

Águas do pensamento
vinde regar o sustento
da minha vida

Este peso calado
queima o sol por trás do monte
queima o tempo parado
queima o rio com a ponte

Águas dos meus cansaços
semeai os meus passos
como uma fonte

Ai que sede tão funda
ai que fome tão antiga
Quantas noites se perdem
no amor de cada espiga ?

Ventre calmo da terra
leva-me na tua guerra
se és minha amiga

Que deserto grande

Nota: Letra inspirada num poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

Vá...vá...
em «Ser solidário», LP de 1982

Quando estou sentado à mesa deste café
sinto vocação de pensador engagé
mas o peso da consciência no peito

não consigo suportar este remorso
tenho que fazer um pequenino esforço
Vou mudar de vida, ai isso é que vou !

Ponho escritos sobre a mesa deste café
ponho escritos na consciência de boa fé
mas o peso da coerência no peito

não consigo suportar este remorso
tenho que fazer um pequenino esforço
Vou mudar de vida, ai isso é que vou!
Vá… vá…

Amigo, sente-se à mesa deste café
vou fazer-lhe uma surpresa por ser quem é
trago uma velinha acesa no peito

Não consigo suportar este remorso
tenho que fazer um pequenino esforço
vou mudar de vida, ai isso é que vou!
Vá… vá…

Mas nem tudo são desgraças neste café
eu vou-me ligar às massas deste café
para ver se esta dor me passa no peito

Não consigo suportar este remorso
tenho que fazer um pequenino esforço

Sim?
Pois, quer dizer…
Bem… Sim, sim
Não, nem tanto
É pá… percebes, pá? Isto, pá…
Quer-se dizer, pá…
Enfim, pá
Bom, bom, ’tá bem
É pá, é tudo uma questão de coerência, não é?
Coerência…
Pronto, pronto
Bem, ’tá bem… É pá…
‘Pera aí, pá, ‘pera aí, pá, ‘pera aí, homem!
É pá, não, pá

Vá, vá
Bardamerda…

Fado Penélope
em «Ser solidário», LP de 1982

Sagrado é este fado que te canto
do fundo da minha alma tecedeira
Da noite do meu tempo me levanto
e nasço feito dia à tua beira

Passei por tantas portas já fechadas
com a dor de me perder pelo caminho
A solidão germina nas mãos dadas
que dão a liberdade ao passarinho

que dão a liberdade ao passarinho

E enquanto o meu amor anda em viagem
fazendo a guerra santa ao desespero
eu encho o meu vazio de coragem
fazendo e desfazendo o que não quero

fazendo e desfazendo o que não quero

A fome de estar vivo é tão intensa
paixão que se alimenta do perigo
De o chão em que se inscreve a minha crença
Só ter por garantia ser antigo

Só ter por garantia ser antigo

Qual é a tua, ó meu ?
em «Ser solidário», LP de 1982

Qual é a tua, ó meu?
Andares a dizer quem manda aqui sou eu?
Qual é a tua, ó meu?
Nesse peditório o pessoal já deu

Qual é a tua, ó meu?
Andares a dizer quem manda aqui sou eu?
Qual é a tua, ó meu?
Nesse peditório o pessoal já deu

Com trinta por uma linha
esburacaste a Liberdade
e a Alegria
É só puxar a Pontinha
cai o Carmo e a Trindade
no mesmo dia

Com tanta Ladra no mundo
O teu Rato andava à caça
dos Sapadores
Quanto mais a dor Dafundo
menos a gente acha Graça
aos ditadores

Qual é a tua, ó meu?
Andares a dizer quem manda aqui sou eu?
Qual é a tua, ó meu?
Nesse peditório o pessoal já deu.

Qual é a tua, ó meu?
Andares a dizer quem manda aqui sou eu?
Qual é a tua, ó meu?
Nesse peditório o pessoal já deu.

O Intendente semeou
o Desterro e o Calvário
sem nenhum dó
Mas Santa Justa acordou
porque a Voz do Operário
não Fala-Só

Pedes Ajuda e Mercês
mas só Palhavã vais pondo
no nosso prato
Engarrafa-se o Marquês
e cai o Conde Redondo
mais o Beato (ouvistes, pá ?)

Qual é a tua, ó meu?
Andares a dizer quem manda aqui sou eu?
Qual é a tua, ó meu?
Nesse peditório o pessoal já deu.

Qual é a tua, ó meu?
Andares a dizer quem manda aqui sou eu?
Qual é a tua, ó meu?
Nesse peditório o pessoal já deu.

Sem Socorro, ardeu-te a tenda
mas tu ficas Entrecampos
a ver se escapas (até choras !)
Mas como não tens Emenda
vais com Baixa de sarampo
para a Buraca

Não é possível meter
Águas Livres numa Bica
como tu queres
Quem pensa assim, podes crer,
Campo Grande ou de Benfica
é nos Prazeres (estás a ouvir, ó Meco?)

Qual é a tua, ó meu?
Andares a dizer quem manda aqui sou eu?
Qual é a tua, ó meu?
Nesse peditório o pessoal já deu (tira a mão da fruta!)

Qual é a tua, ó meu?
Andares a dizer quem manda aqui sou eu?
Qual é a tua, ó meu?
Nesse peditório o pessoal já deu

Nesse peditório o pessoal já deu
Nesse peditório o pessoal já deu (confere !)

Eu vim de longe
em «Ser solidário», LP de 1982

Quando o avião aqui chegou
quando o mês de Maio começou
eu olhei p’ra ti
e então eu entendi
foi um sonho mau que já passou
foi um mau bocado que acabou

Tinha esta viola numa mão
uma flor vermelha noutra mão
tinha um grande amor
marcado pela dor
e quando a fronteira me abraçou
foi esta bagagem que encontrou

Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei pr’aqui chegar
Eu vou p’ra longe
p’ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p’ra nos dar

E então olhei à minha volta
vi tanta esperança andar à solta
que não hesitei
e os hinos que cantei
foram frutos do meu coração
feitos de alegria e de paixão

Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei pr’aqui chegar
Eu vou p’ra longe
p’ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p’ra nos dar

Quando a nossa festa se estragou
e o mês de Novembro se vingou
eu olhei p’ra ti
e então eu entendi
foi um sonho lindo que acabou
houve aqui alguém que se enganou

Tinha esta viola numa mão
coisas começadas noutra mão
Tinha um grande amor
marcado pela dor
e quando a espingarda se virou
foi p’ra esta força que apontou

Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei pr’aqui chegar
Eu vou p’ra longe
p’ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p’ra nos dar

E então olhei à minha volta
vi tanta mentira andar à solta
que me perguntei
se os hinos que cantei
eram só promessas e ilusões
que nunca passaram de canções

Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei pr’aqui chegar
Eu vou p’ra longe
p’ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p’ra nos dar

Quando finalmente eu quis saber
se ainda vale a pena tanto qu’rer
eu olhei p’ra ti
e então eu entendi
é um lindo sonho p’ra viver
quando toda a gente assim quiser

Tenho esta viola numa mão
tenho a minha vida noutra mão
tenho um grande amor
marcado pela dor
e sempre que Abril aqui passar
dou-lhe este farnel p’rò ajudar

Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei pr’aqui chegar
Eu vou p’ra longe
p’ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p’ra nos dar

E agora eu olho à minha volta
vejo tanta raiva andar à solta
que já não hesito
e os hinos que repito
são a parte que eu posso prever
do que a minha gente vai fazer

Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei pr’aqui chegar
Eu vou p’ra longe
p’ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p’ra nos dar

Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei pr’aqui chegar
Eu vou p’ra longe
p’ra muito longe
onde nos vamos encontrar

Eu vim de longe
de muito longe
Eu vou p’ra longe
p’ra muito longe

Eu vim de longe
de muito longe
Eu vou p’ra longe
p’ra muito longe

Eu vim de longe
de muito longe
Eu vou p’ra longe
p’ra muito longe

Inquietação
em «Ser solidário», LP de 1982

A contas com o bem que tu me fazes
a contas com o mal por que passei
com tantas guerras que travei
já não sei fazer as pazes

São flores aos milhares entre ruínas
meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
é só inquietação, inquietação
porquê não sei, porquê não sei
porquê não sei  ainda

Há sempre qualquer coisa que está pr’acontecer
qualquer coisa que eu devia perceber
porquê não sei, porquê não sei
porquê não sei  ainda

Ensinas-me a fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
pois falta sempre pouco p’ra chegar
Eu não meti o barco ao mar
p’ra ficar pelo caminho

Cá dentro inquietação, inquietação
é só inquietação, inquietação
porquê não sei, porquê não sei
porquê não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pr’acontecer
qualquer coisa que eu devia perceber
porquê não sei, porquê não sei
porquê não sei ainda

Cá dentro inquietação, inquietação
é só inquietação, inquietação
porquê não sei, mas sei
é que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pr’acontecer
qualquer coisa que eu devia perceber
porquê não sei, mas sei
é que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
qualquer coisa que eu devia resolver
porquê não sei, mas sei
que essa coisa é que é linda !

Treze anos, nove meses
em «Ser solidário», LP de 1982

Deixa-me encostar a cabecinha
que eu sou pobre como Job
Deixa-me chamar às vezes pela mãezinha
e aprender a ficar só

Começar a contar
branca a branca o nosso amor
sem fintar, sem temor
Filho a filho eu te amaria
mais o pão de cada dia

Às vezes melhor, outras vezes pior
fomos acertando o pensamento
E a vida lá fora
é que nos dava a cor
para pintar o amor
que estava dentro

Deixa-me enterrar tuas raízes
no meu corpo de água e sal
Deixa-me não ouvir bem o que tu dizes
quando não leste o jornal

Começar a contar
hora a hora tantas vezes
treze anos, nove meses
Gesto a gesto eu te amaria
mais o pão de cada dia

Às vezes melhor, outras vezes pior
fomos acertando o pensamento
E a vida lá fora
é que nos dava a cor
p’ra pintar o amor
que estava dentro

Deixa-me sentar numa cadeira
e descansar a teu lado
Deixa-me gritar cá à minha maneira
que eu grito sempre calado

Começar a contar
um a um os companheiros
os de agora, os primeiros
Mão a mão eu te amaria
mais o pão de cada dia

Às vezes melhor, outras vezes pior
fomos acertando o pensamento
E a vida lá fora
é que nos dava a cor
p’ra pintar o amor
que estava dentro

Ser solidário
em «Ser solidário», LP de 1982
Ser solidário assim para além da vida
por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
e improvavelmente ser felizDe como aqui chegar não é mister
contar o que já sabe quem souber
O estrume em que germina a ilusão
fecundará por certo esta canção
Ser solidário sim, por sobre a morte
que depois dela só o tempo é forte
e a morte nunca o tempo a redime
mas sim o amor dos homens que se exprime
De como aqui chegar não vale a pena
já que a moral da história é tão pequena
Que nunca por vingança eu te daria
no ventre das canções sabedoria
Ser solidário assim para além da vida
por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
e improvavelmente ser feliz
FMI
em «FMI», Single de 1982

Vou-vos mostrar mais um pedaço da minha vida, um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito assim de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 79, e que talvez tenha um ou outro pormenor que já não é muito actual. Eu vou-vos dar o texto tal e qual como eu o escrevi nessa altura, sem ter modificado nada, por isso vos peço que não se deixem distrair por esses pormenores que possam já não ser muito actuais e que isso não contribua para desviar a vossa atenção do que me parece ser o essencial neste texto.
Chama-se FMI. Quer dizer: Fundo Monetário Internacional.
Não sei porque é que se riem, é uma organização democrática dos países todos, que se reúnem como as pessoas, em torno de uma mesa para discutir os seus assuntos, e no fim tomar as decisões que interessam a todos. É o internacionalismo monetário!

Cachucho não é coisa que me traga a mim
mais novidade do que lagostim
Nariz que reconhece o cheiro do pilim
distingue bem o Mortimore do Meirim
A produtividade, ora aí está!, quer dizer:
há tanto nesta terra que ainda está por fazer
Entrar por aí dentro, analisar, e então
Do meu attachécase sai a solução!

FMI
Não há graça que não faça o FMI

FMI
O bombástico de plástico pra si

FMI
Não há força que retorça o FMI

Discreto e ordenado, mas nem por isso fraco
eis a imagem on the rocks do cancro do tabaco
Enfio uma gravata em cada fato-macaco
e meto o pessoal todo no mesmo saco
A produtividade, ora aí está!, quer dizer:
Não ando aqui a brincar! Não há tempo a perder!
Batendo o pé na casa, espanador na mão
é só desinfectar em superprodução

FMI
Não há truque que não lucre ao FMI

FMI
O heróico paranóico harakiri

FMI
Panegírico pró-lírico daqui

Palavras, palavras, palavras e não só
palavras para si, palavras para dó
A contas com o nada, há que swingar o solidó
depois a criadagem lava o pé e limpó-pó
A produtividade, ora nem mais!,
Célulazinhas cinzentas
sempre atentas
E levas pela tromba, se não te pões a pau
um encontrão imediato do terceiro grau

FMI
Não há lenha que detenha o FMI

FMI
Não há ronha que envergonhe o FMI

FMI

Entretém-te filho, entretém-te
não desfolhes em vão este malmequer que bem-te
…quer mal-te
…quer vem-te
…quer, o-vo-mal-te
…quer-messe gigantes-ca vem-te bem
bem te vim
VIM na cozinha
VIM na casa-de-banho
VIM no Politeama
VIM no Águia D’Ouro
VIM em toda-a-parte
vem-te filho, vem-te comer ó-olho
vem-te comer à mão
olhós pombinhos pneumáticos como
te arrulham por esses cartazes fora…
olhá música no coração da Indira Ghandi
olhó Moshe Dayan que te traz debaixo d’olho
o respeitinho é muito lindo e nós
somos um povo de respeito,
n’é filho? Nós somos um povo de
respeitinho muito lindo
saímos à rua de cravo na mão
sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão
a horas certas
né, filho?
Consolida filho, consolida…
enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela,
que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde…
Consolida filho, consolida…
que o trabalhinho é muito lindo,
o teu trabalhinho é muito lindo,
é o mais lindo de todos
– cumó astro, né, filho? – o cabrão do astro
entra-te pela porta das traseiras,
tu tens um gozo do caraças,
vais dormir entretido – né ? –
Pois claro, ganhar forças, ganhar forças pra consolidar,
pra ver se a gente consegue num grande esforço nacional
estabilizar esta destabilização filha-da-puta, né filho?

Pois claro! E estás aí a olhar para mim,
estás aí a ver-me dar trinta e três voltinhas por minuto,
pagaste o teu bilhete, pagaste o teu imposto de transacção
e estás a pensar lá c’os teus zodíacos este tipo está-me a gozar, este gajo quem é que julga que é?, né, filho?
Pois não é verdade que tu és um herói desde que nasceste? a ti não é qualquer totobola que te enfió barrete, meu ganda safadote, hein? meu Fernão Mendes Pinto de merda! né, filho?
onde está o teu extremo-oriente, filho?
aniki-bé-bé
aniki-bó-bó,
tu és Sepúlveda, tu és Adamastor
pois claro!
Tu sozinho consegues enrabar as Nações Unidas
com passaporte de coelho,
né, filho?
mal eles sabem, pois é?
tu sabes o que é gozar a vida!
Entretém-te filho, entretém-te

Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho,
trabalhinho,
porreirinho da silva
e salve-se quem puder que a vida é curta
e os santos não ajudam quem anda práqui a encher pneus
com este paleio de sanzala
em ritmo de pop-chula, né filho?

a-one
a- two
a one-two-three

FMI
FMI

Càmóne, iú, san óve abiche !
Càmóne, beibi, a ver se me comes, Càmóne, Luiz Vaz,
amanda-lhe com os decassílabos que eles já vão saber o que é
meterem-se com uma nação de poetas!
E zás !
Enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares
zás ! enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro de Cunhal
zás ! enfio-te a Natália Correia no Sá Carneiro
zás ! enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros
zás ! enfio-te o Pedro Homem de Melo no Parque Mayer
e acabamos todos numa sardinhada à integralismo Lusitano a estender o braço,
meio Rolão Preto, meio Steve MacQueen,
OK BOSS, tudo OK, estamos numa porreira meu,
um trip fenomenal, proibido voltar atrás,
vivá liberdade, né filho?
Pois ! irreversível, pois claro, irreversívelzinho,
pluralismo a dar c’um pau, nada será como antes,
agora todos se chateiam doutra maneira, né filho?

Ora que porra ! Deixa lá correr uma fila ao menos !
Malta pá, é assim mesmo, cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, né?

Preocupações, crises políticas, pá! a culpa
é dos partidos pá! esta merda dos partidos é que divide a malta, pá!

Pois, pá! é só paleio, pá! o pessoal não quer é trabalhar, pá! Razão tem o Jaime Neves pá!
— olha, deixaste cair as chaves do carro! – pois pá — que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves? — é pá, deixa-te disso, não desestabilizes, pá! — Eh, faz favor, é mais uma bica e um pastel de nata –  uma porra pá ! um autêntico desastre, o 25 de Abril, esta confusão, pá, a malta estava sossegadinha, a bica a quin’chões, a gasosa a sete e croa… tá bem, essa merda da pide, pá, tarrafais e o carago, mas no fim de contas quem é que não colaborava? hem? quantos bufos havia nesta merda deste país? heim? quem é que não se calava? quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo o que se chama arriscar? hein? meia-dúzia de líricos, pá! meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir pró estrangeiro, pá!

Isto é tudo a mesma carneirada!
ó sô guarda venha cá – Á !
venha ver como isto é — É!
o barulho que vai aqui— I!
o neto a bater n’avó — Ó!
deu-lhe um pontapé no cú — né, filho?

Tu vais conversando, conversando, que ao menos agora pode-se falar!…ou já não se pode?
ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar? hein?
estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril eram só paleio, a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho?
e tu fizeste cumó avestruz, enfiaste a cabeça n’areia, não é nada comigo… não é nada comigo…, né, e os da frente que se lixem, e é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho? precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas pra cima de alguém e atiras as culpas prós da frente, prós do 25 de Abril, prós do 28 de Setembro, prós do 11 de Março, prós do 25 de Novembro, prós do…
…que dia é hoje ? hein ?

FMI
FMI

Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, né filho?
TODOS temos culpas no cartório, foi isso que te ensinaram, não é verdade?
ESTA MERDA NÃO ANDA, PORQUE A MALTA – pá – A MALTA NÃO QUER QUE ESTA MERDA ANDE! tenho dito!
A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer-se dizer: há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muito bons,
NO FUNDO, né?
Somos todos uma nação de pecadores e vendidos, né?
Somos todos
ou anti-comunistas ou anti-fascistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos pràqui, ismos pràcolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole, parole, parole, e o Zé é que se lixa, cá o Pintas é sempre mexilhão,
eu quero lá saber desse paleio, vou mas é ó futebol, pronto,
bibó-Puârto, vivó-Bâfica, Lou-ro-sa, Lou-ro-sa, Mar-ra-zes, Mar-ra-zes, fóró árbitro, gatuno, qual gatuno qual caralho, razão tinha o Tonico Bastos para se entreter, né filho?

Entretém-te filho, cas tuas viúvas e as tuas órfãs,
que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores,
entretém-te que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais,
entretém-te, filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho,
entretém-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar,
entretém-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes,
entretém-te, filho,

e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada, milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos, com computadores, redes de polícia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá!, podes estar descansado que o Teng-Hsiao-Ping está a tratar da tua vida com o Jimmy Carter, o Brejnev está a tratar de ti com o João Paulo II, tudo corre bem, a ver quem se vai abotoar com os vint’cinc’chões de riqueza que tu vais produzir amanhã nas tuas oito-horas,
a ver quem vai ser capaz de te convencer de que a culpa é tua e só tua, se o teu salário perde valor todos os dias, vão-te convencer de que a culpa é só tua, se o teu poder de compra é cumó rio de São Pedro de Muel que se some nas areias em plena praia, ali, a dez metros do mar em maré cheia, e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer porra, finalmente o rio desaguou
vão-te convencer de que a culpa é tua, e tu sem culpa nenhuma, tás tu a ver?
Que tens tu a ver com isso, né filho?
Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim! Não é?
Tu fazes cumós outros… fazes o que tens a fazer…
– votas à esquerda moderada nas sindicais
– votas no centro moderado nas deputais
– e votas na direita moderada nas presidenciais
que mais querem eles?
que lhe ofereças a europa no natal? era o que faltava!
É assim mesmo, julgam que te levam de Mercedes? toma!
Pra safado, safado-e-meio, né filho?
Nem prá frente nem pra trás, e eles que tratem do resto,
os gatunos, que são pagos pra isso, né?

Claro! que se lixem as alternativas!
Pra trabalho já me chega.

Entretém-te, meu anjinho, entretém-te,
que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti,
se hás de construir barcos prá Polónia ou cabeças de alfinete prá Suécia,
se hás-de plantar tomate pró Canadá ou eucaliptos pró Japão,
descansa que eles tratam disso,
se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos
ou se hás de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo,
descansa, não penses em mais nada, que até neste país de pelintras se acha normal haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar,
descontrai, beibi, CÀMÓNE, descontrai,
afinfa-lhe o Bruce-Li, afinfa-lhe a macrobiótica, o biorritmo, o horoscópio, dois ou três ovniologistas, um gigante da Ilha-de-Páscoa e uma Grace-de-Mónaco de vez em quando para dar as boas-festas às criancinhas,
piramiza, filho, piramiza, antes que os chatos fujam todos pró Egipto, que assim é que tu te fazes um homenzinho, e até já pagas multa se não fores ao recenseamento

Pois, pá ! isto é um país de analfabetos, pá!
Dá-lhe no Travolta
dá-lhe no discousáunde
dá-lhe no pop-chula
pop-chula
pop-chula
yeah! yeah !
JOTAPIMENTA FORÉVER!
quanto menos souberes a quantas andas, melhor para ti…
Não te chega pró bife? – antes no talho do que na farmácia!
não te chega prá farmácia? – antes na farmácia do que no tribunal!
não te chega pró tribunal? – antes a multa do que a morte!
não te chega pró cangalheiro? – antes prá cova do que pra não-sei-quem que há-de vir, cabrões de vindouros, heim? sempre a merda do futuro, e eu que me quilhe!

Pois pá ! sempre a merda do futuro, a merda do futuro, E EU ? HEIM? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá ! e eu? José Mário Branco, 37 anos
Isto é que é uma porra!
anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos,
a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal-viver, é?
– O menino é mal criado
– o menino é pequeno-burguês
– o menino pertence a uma classe sem futuro histórico
Eu sou parvo, ou quê?
quero ser feliz, porra!
quero ser feliz agora!
que se foda o futuro!
que se foda o progresso!
mais vale só do que mal-acompanhado!

Vá! mandem-me lavar as mãos antes de ir prá mesa, FILHOS DA PUTA DE PROGRESSISTAS DO CARALHO DA REVOLUÇÃO QUE VOS FODA A TODOS !
Deixem-me em paz: Porra, deixem-me em paz e sossego!
Não me emprenhem mais pelos ouvidos, caralho! Não há paciência!
Não há paciência, deixem-me em paz, caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e polícias e generais pró raio que vos parta! Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho, deixem-me só para sempre, tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto!, já chega!
Sossego, porra! silêncio, porra!
deixem-me só,
deixem-me só,
deixem-me só,
deixem-me morrer descansado,
eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado,
eu quero lá saber do Benfica e do Bispo do Porto,
eu quero se lixe o 13-de-Maio e o 5-de-Outubro
e o Melo Antunes e a Rainha de Inglaterra e o Santiago Carrillo e a Vera Lagoa!
Deixem-me só! Porra! Rua! Larguem-me! Desòpila o fígado! Arreda! Tarrenego-satanás! FILHOS DA PUTA!
Eu quero morrer sozinho! Ouviram? Eu quero morrer
Eu quero que se foda o FMI, eu quero lá saber do FMI, eu quero que o FMI se foda, eu quero lá saber que o FMI me foda a mim, eu vou mas-é votar no Pinheiro de Azevedo se ele tornar a ir pró hospital! pronto!
Bardamerda o FMI! O FMI é só pretexto vosso, seus cabrões! o FMI não existe! o FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma! o FMI é uma finta vossa pra virem pràqui com esse paleio! Rua! Desandem daqui pra fora!
a culpa é vossa!
a culpa é vossa!
a culpa é vossa!
a culpa é vossa!
a culpa é vossa!
a culpa é vossa!
Ó MÃE
Ó MÃE
Ó MÃE
Ó MÃÃÃÃÃE

Mãe! eu quero ficar sozinho!
Mãe! eu não quero pensar mais!
Mãe! eu quero morrer, mãe!
Eu quero des-nascer, ir-me embora sem sequer ter que me ir embora.
Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e me encontrar fugindo.
De quê, mãe? Diz, são coisas que se me perguntem?
Não pode haver razão para tanto sofrimento.
E se inventássemos o mar de volta?
e se inventássemos partir pra regressar?
Partir, e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste, partida pra ganhar, partida de acordar, abrir os olhos,
numa ânsia colectiva de tudo fecundar,
terra, mar, mãe,
lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto,
lembrar, nota-a-nota, o canto das sereias,
lembrar o depois-do-adeus e o frágil ingénuo cravo da rua do Arsenal,
lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição…
Partir aqui com a ciência toda do passado, partir AQUI
pra ficar

Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila,
o azul dos operários da Lisnave a desfilar,
gritando ódio apenas ao vazio
exército de amor e capacetes

Assim mesmo, na Praça de Londres, o soldado lhes falou:
olá camaradas, somos trabalhadores e eles não conseguiram fazer-nos esquecer; aqui está a minha arma para vos servir

Assim mesmo, por trás das colinas onde o verde está à espera, se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de Lavacolhos

Assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores:
De quem é o carvalhal?
É NOSSO!

Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei,
neste cais eu encontrei
a margem do outro lado, grândola vila morena

Diz lá: valeu a pena a travessia?
Valeu, pois.

Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe,
no fundo deste mar encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos,
o meu canto e a palavra.
O meu sonho é a luz que vem do fim do mundo,
dos vossos antepassados que ainda não nasceram,
a minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez.

sou português
pequeno-burguês de origem, filho de professores primários
artista de variedades,
compositor popular, aprendiz de feiticeiro
faltam-me dentes.
Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto,
muito mais vivo que morto
Contai com isto de mim
pra cantar
e para o resto.

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