José Mário Branco

Ronda do Soldadinho
em «Ronda do Soldadinho / Mãos ao ar», Single de 1970

Um e dois e três
era uma vez
um soldadinho
De chumbo não era
como era
o soldadinho

Um menino lindo
que nasceu
num roseiral
O menino lindo
não nasceu
para fazer mal

Menino cresceu
já foi à escola
de sacola
Um e dois e três
já sabe ler
sabe contar

Menino cresceu
já aprendeu
a trabalhar
Vai gado guardar
já vai lavrar
e semear

Um e dois e três
era uma vez
um soldadinho
De chumbo não era
como era
o soldadinho

Menino cresceu
mas não colheu
de semear
Os senhores da terra
o mandam para a guerra
morrer ou matar

Os senhores da guerra
não matam
mandam matar
Os senhores da guerra
não morrem
mandam morrer

A guerra é para quem
nunca aprendeu
a semear
É para quem só quer
mandar matar
para roubar

Um e dois e três
era uma vez
um soldadinho
de chumbo não era
como era
o soldadinho

Dancemos meninos
a roda
no roseiral
Que os meninos lindos
não nascem
para fazer mal

Soldadinho lindo
era o rei
da nossa terra
Fugiu para França
para não ir
morrer na guerra

Soldadinho lindo
era o rei
da nossa terra
Fugiu para França
para não ir
matar na guerra

Nevoeiro
em «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», LP de 1971

Onde vais ó caminheiro
com o teu passo apressado
Onde vais ó caminheiro
com o teu passo apressado
Vou ao cais do terreiro
ver o rei Sebastião primeiro
num lençol amortalhado
Voltou no seu veleiro
Nevoeiro
sem leme nem gageiro
e com o casco arrebentado

Onde vais ó caminheiro
com o teu passo apressado
com teus olhos em braseiro
e teu rosto afogueado
Vou ao cais do terreiro
ver o rei Sebastião primeiro
Por alcunha o desejado
Voltou no seu veleiro
Nevoeiro
sem leme nem gageiro
num lençol amortalhado

Onde vais ó caminheiro
com o teu passo apressado
Porque levas caminheiro
tanta pressa no cajado
Vou ao cais do terreiro
ver o rei Sebastião primeiro
num lençol amortalhado
Voltou no seu veleiro
Nevoeiro
Esperado primeiro
e depois desesperado

Onde vais ó caminheiro
com o teu passo apressado
Que traz ó caminheiro
esse príncipe encantado
Vou ao cais do terreiro
ver o rei Sebastião primeiro
Há tanto tempo esperado
Voltou no seu veleiro
Nevoeiro
sem glória nem dinheiro
num lençol amortalhado

Onde vais ó caminheiro
com o teu passo apressado
Era príncipe ou sendeiro
Sebastião o desejado
Vou ao cais do terreiro
ver o rei Sebastião primeiro
num lençol amortalhado
Era príncipe herdeiro
Nevoeiro
O príncipe agoireiro
o príncipe mal esperado

Onde vais ó caminheiro
com o teu passo apressado
Porque paras caminheiro
se é Sebastião finado
Voltou no seu veleiro
Nevoeiro
Leme nem gageiro
num lençol amortalhado
Vou ao cais do terreiro,
Nevoeiro
P’ra ficar bem certeiro
De que é morto e enterrado

Mariazinha
em «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», LP de 1971

Mariazinha
deita os olhos para o mar
Pela tardinha
quando a noite espreitar
E no verde das águas sem fundo
já se perde da esperança do mundo
a afundar
a afundar

Mariazinha
deita os olhos para o mar
Tão pequenina
sem saber que pensar
Vê a roda do mundo girando
E os navios ao longe passando
sem parar
sem parar

Mariazinha
deita os olhos para o mar
Tão quietinha
a chorar, a chorar
Uma fonte de sangue no peito
Uma sombra na boca e um trejeito
no olhar
sem parar

Mariazinha, deita os olhos para o mar
Tão caladinha
a chamar, a chamar
Vai para o fundo da noite fria
Numa barca de rendas vazia
a afundar
sem parar

Mariazinha
com rendas de algas tapada
tão quietinha
no fundo do mar pousada

Por terras de França
em «Margem de certa maneira», LP de 1972

Vou andando por terras de França
pela viela da esperança
sempre de mudança
tirando o meu salário

Enquanto o fidalgo enche a pança
o Zé Povinho não descansa
Há sempre uma França
Brasil do operário

Não foi por vontade nem por gosto
que deixei a minha terra
entre a uva e o mosto
fica sempre tudo neste pé

Vamos indo por terras de França
nossa miragem de abastança
sempre de mudança
roendo a nossa grade

Quando vai o gado para a matança
ao Cabo da Boa-Esperança
bolas para a bonança
e viva a tempestade

Não foi por vontade nem por gosto
que deixei a minha terra
entre a uva e o mosto
fica sempre tudo neste pé

Vamos indo por terras de França
com a pobreza na lembrança
sempre de mudança
com olhos espantados

Canta o galo e a governança
a tesourinha e a finança
e os cães de faiança
ladrando afinados

Não foi por vontade nem por gosto
que deixei a minha terra
entre a uva e o mosto
fica sempre tudo neste pé

Vamos indo por terras de França
trocando a sorte pela chança
sempre de mudança
suando o pé de meia

Com a alocação e a segurança
com sindicato e com vacança
Há sempre uma França
Numa folha de peia

Não foi por vontade nem por gosto
que deixei a minha terra
entre a uva e o mosto
fica sempre tudo neste pé

Não foi por vontade nem por gosto
que deixei a minha terra
entre a uva e o mosto
fica sempre tudo neste pé

Engrenagem
em «Margem de certa maneira», LP de 1972

Do berço à cova sem parar
caminho fora sempre a andar
Cá vou levando a minha vida

Um minutinho a descansar
A vida inteira a trabalhar
Suar sem conta nem medida

Para ter um companheiro nesta viagem
vou meter um pauzinho na engrenagem

Do berço à cova sem vagar
Enxada à terra barco ao mar
A mão e a máquina ao compasso

Os bois no campo a lidar
E o serventio a trabalhar
Todos com o mesmo cangaço

Para ter um companheiro nesta viagem
vou meter um pauzinho na engrenagem

Do berço à cova sol a sol
por pão, amor e futebol
Dor no sapato e dor na espinha

Canta-se o fado em lá bemol
Morde a sardinha no anzol
E o tubarão segura a linha

Para ter um companheiro nesta viagem
Vou meter um pauzinho na engrenagem

Do berço à cova sem parar
caminho fora sempre a andar
Cá vou levando a minha vida

Um minutinho a descansar
A vida inteira a trabalhar
suar sem conta nem medida

Para ter um companheiro nesta viagem
vou meter um pauzinho na engrenagem

Aqui dentro de casa
em «Margem de certa maneira, LP de 1972

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui para aquilo que serei

Foi há tantos anos, foi há dois mil anos que vi no amor o meu Cristo
que me mostraste um amor imprevisto
que me falaste na pele e no corpo a sorrir
Meus olhos fechados, mudos, espantados
te ouviram como se apagasses
a luz do dia ou a luta de classes
Meus olhos verdes, ceguinhos de todo
para te servir

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui para aquilo que serei

Filhos e cadilhos, panelas e fundilhos
meteste as minhas mãos à obra
e encontraste argumentos de sobra
para evitar que o meu corpo pensasse na vida
Meus olhos fechados, mudos e cansados
não viam se verso, se prosa
O meu suor era o teu mar de rosas
Meus olhos verdes, janelas de vida, fechados por ti

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui para aquilo que serei

Pegas-me na mão e falas do patrão
que te paga um salário de fome
Do teu patrão que te rouba o que come
Falas contigo sozinho para desabafar
Meus olhos parados, mudos e cansados
não podem ouvir o que dizes
e fico à espera que me socializes
Meus olhos verdes, boneca privada do teu bem-estar

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui para aquilo que serei

Sou tua criada, boa e dedicada
na praça, na casa e na cama
Tu só me vês quando vestes pijama
mas não me ouves se digo que quero existir
Meus olhos cansados ficam acordados
de noite chorando esta sorte
de ser escrava para a vida e para a morte
Meus olhos verdes vermelhos de raiva para te servir

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui para aquilo que serei

A tua vontade, justiça e igualdade
não chega aqui dentro de casa
Eu só te sirvo para a maré vaza
mas eu já sinto a minha maré cheia  a subir
Meus olhos cansados abrem-se espantados
para a vida de que me falavas
para combater contra os donos de escravas
Meus olhos verdes que te vão falar e que tu vais ouvir

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Sei aquilo que fui e que jamais serei

Margem de certa maneira
em «Margem de certa maneira», LP de 1972

Dentro da margem de dentro
na raiz e no lamento
Guarda vento e ribanceira
margem de certa maneira
de fazer uma viagem
de ultrapassar a barreira
fazer do vento poeira
da ribanceira barragem

Fora da margem de dentro
entre o caule e o lamento
há sempre um pequeno espaço
entre movimento e passo
Entre passo e movimento
a corda que faz o laço
a força que faz o braço
acordar o pensamento

Escorrego na lama do meu passado
do meu passado presente
mas não fico na lama desnorteado
Vou ao fundo da lama do outro lado
do outro lado da mente
do outro lado da gente
do lado da gente do outro lado
do lado da gente que vive de frente
da gente que vive o futuro presente

Fora da margem de fora
fica a sombra e a demora
A voz do vento é mudança
muda o escudo, fica a lança

Sem medida para agora
saltam pulgas na balança
Pára o vento, vira a dança
no espaço de uma hora

Dentro da margem de fora
não há sombra na demora
Estatelada na História
fica a margem divisória

E no meio da viagem
a voz do vento é memória
de acreditar na vitória
de rebentar a barragem

Escorregas na lama do teu passado
do teu passado presente
mas não ficas na lama desnorteado
Vais ao fundo da lama do outro lado
Do outro lado da mente
do outro lado da gente
do lado da gente do outro lado
do lado da gente que vive de frente
da gente que vive o futuro presente

Sant'Antoninho
em «Margem de certa maneira», LP de 1972

Meu Sant’Antoninho
onde te hei-de pôr
deixa-me limpar o pó

Meu Sant’Antoninho
dou-te o meu amor
com chazinho e pão-de-ló
deixa a vovó apertar o nó

Deixa a vovó apertar o nó

Para voar mais vale ter uma na mão
e um cheirinho a naftalina no salão
E a filha do juiz
põe pozinho no nariz
e sapatos de verniz
para ir à comunhão

Meu Sant’Antoninho
onde te hei-de pôr
fica do lado de cá

Meu Sant’Antoninho
meu senhor doutor
assina-me um alvará
com a caneta do teu papá

Com a caneta do teu papá

Foi a guerra que me deu a ilusão
de subir quando caí no alçapão
e a madrinha do polícia
pisca o olho com malícia
para tentar canonizar
os pretos do Japão

Meu Sant’Antoninho
onde te hei-de pôr
para me lembrar de ti

Meu Sant’Antoninho
dá-me o teu tambor
e um lencinho de organdi
e uma medalha para pôr aqui

E uma medalha para pôr aqui

Eu a pôr flores de papel no teu jarrão
e o comboio a apitar na estação
Já não o posso apanhar
fico aqui a descansar
meditando no mistério
da incarnação

A cantiga é uma arma
em «A cantiga é uma arma», de 1975, assinado colectivamente pelo Grupo de Acção Cultural (GAC)
A cantiga é uma arma
E eu não sabia
Tudo depende da bala
E da pontaria
Tudo depende da raiva
E da alegria
A cantiga é uma arma
De pontaria
Há cante por interesse
Há quem cante por cantar
Há quem faça profissão
De combater a cantar
E há quem cante de pantufas
Para não perder o lugar
O faduncho choradinho
De tabernas e salões
Semeia só desalento
Misticismo e ilusões
Canto mole em letra dura
Nunca fez revoluções
A cantiga é uma arma (Contra quem ?)
Contra a burguesia
Tudo depende da bala
E da pontaria
Tudo depende da raiva
E da alegria
A cantiga é uma arma
De pontaria
Se tu cantas a reboque
Não vale a pena cantar
Se vais à frente demais
Bem te podes engasgar
A cantiga só é arma
Quando a luta acompanhar
Uma arma eficiente
Fabricada com cuidado
Deve ter um mecanismo
Bem perfeito e oleado
E o canto com uma arma
Deve ser bem fabricado
A cantiga é uma arma (Contra quem camaradas?)
Contra a burguesia
Tudo depende da bala
E da pontaria
Tudo depende da raiva
E da alegria
A cantiga é uma arma
De pontaria
A luta do Jornal do Comércio
em  «A cantiga é uma arma», de 1975, assinado colectivamente pelo Grupo de Acção Cultural (GAC)

Muita gente nesta terra
nos fala de democracia
mas os meios de informação
estão nas mãos da burguesia

E no Jornal do Comércio
os trabalhadores unidos
fazem uma justa greve
para expulsar um bandido

Ó Machado vai-te embora
que nós não te queremos cá
Nós estamos vigilantes
o fascismo não passará !

Vinte e dois dias passaram
e a greve continua
Nem que o ministro não queira
o Machado há-de ir para a rua

Para isso conseguirmos
o povo tem que apoiar
contra esses fura-greves
que nos querem isolar

Ó Machado vai-te embora
que nós não te queremos cá
Nós estamos vigilantes
o fascismo não passará !

Lutar pelo saneamento
é lutar contra o fascismo
que é o perigo permanente
de todo o capitalismo

Camaradas da imprensa
não podemos desarmar
Nós queremos democracia
mas tem que ser popular !

Ó Machado vai-te embora
que nós não te queremos cá
Nós estamos vigilantes
o fascismo não passará !

Mas há muitos mais Machados
que o povo expulsará
Nós estamos vigilantes
o fascismo não passará !

A luta dos bairros camarários
em «A cantiga é uma arma», de 1975, assinado colectivamente pelo Grupo de Acção Cultural (GAC)

Os fascistas cá do Porto
fazem bairros camarários
escondem nossa miséria
nas costas dos seus palácios
e a opressão aos moradores
nas costas do alvará

A opressão tem mil caras
tudo rouba nada dá

A opressão tem mil caras
tudo rouba e nada dá
Em Portugal libertado
tudo isso acabará

Moradores, povo unido
tudo junto lutará !

Atiremos para a lixeira
a camioneta e o fiscal
Ajudaremos assim
a libertar Portugal

E gritemos todos juntos
para ajudar o movimento

Abaixo o Abel Monteiro
e o seu regulamento

Alerta
em «A cantiga é uma arma», de 1975, assinado colectivamente pelo Grupo de Acção Cultural (GAC)

Pelo pão e pela paz
E pela nossa terra
Pela independência
E pela liberdade
Alerta! alerta!
Às armas! às armas!
Alerta!

Pelo PÃO que lhes rouba a burguesia
Que os explora nos campos e nas fábricas
Operários, camponeses hão-de um dia
Arrebatar o poder da burguesia
Abaixo a exploração!
Pelo pão de cada dia!
Pois claro!

Só teremos a paz definitiva
Quando acabar a exploração capitalista
Camaradas, soldados e marinheiros
Lutemos juntos pela paz no mundo inteiro
Soldados ao lado do povo
pela paz num mundo novo!
Pois claro!

Pela TERRA que lhes rouba essa canalha
Dos monopólios e grandes proprietários
Camponeses, lutem pela reforma agrária
Para dar a terra àquele que a trabalha
Reforma agrária faremos!
A terra a quem a trabalha!
Pois claro!

Pela INDEPENDÊNCIA NACIONAL
e a amizade entre os povos do mundo
fora o imperialismo internacional
que tem nas mãos metade de portugal
Abaixo o imperialismo!
Independência nacional!
Pois claro!

Não há povo que tenha liberdade
Enquanto houver na sua terra exploração
Liberdade não se dá, só se conquista
Não há reforma burguesa que resista
Democracia popular!
E ditadura proletária!
Pois claro!

Aos soldados e marinheiros
em «A cantiga é uma arma», de 1975, assinado colectivamente pelo Grupo de Acção Cultural (GAC)

Meu camarada soldado
camarada marinheiro
Nem que me dêem mil anos
de penas e cativeiro
quero falar-te sem medo
falar-te do coração
Quero falar-te de frente
e dar-te a minha opinião
Não há gente neste mundo
que não lute pela vida
por mais que seja roubada
por mais que seja oprimida
Tu que ajudas a acabar
com o fascismo em Portugal
pensa nos quinhentos anos
da opressão colonial

Colonialismo e fascismo
são como a cara e a coroa
da mesma moeda de oiro
que enche os bancos em Lisboa
Esse oiro é suor roubado
aos teus pais, filhos e manos
mas é também o suor
dos teus irmãos africanos

Meu camarada soldado
camarada marinheiro
nem que me dêem mil anos
de penas e cativeiro
quero dizer-te o que penso
dar-te a minha opinião
falar-te do pensamento
e também do coração

Tenta agora imaginar
que em tempos que já lá vão
chegavam uns estrangeiros
à tua povoação
Os teus avós recuados
sem ódio no pensamento
eram logo escravizados
com todo aquele armamento

Invadiam tua casa
sentavam-se na cozinha
e olhavam-te dizendo
«esta casa agora é minha»
E não contentes com isso
punham-te ferros nos pés
obrigando-te ao trabalho
contra ventos e marés

No campo que dava o pão
obrigavam-te a cavar
cinco colheitas por ano
para cinco vezes te roubar
Na horta do teu vizinho
abriam minas no chão
No ramo em que vais aos ninhos
enforcavam teu irmão

Meninos na tua terra
na rua a pedir esmola
e o menino do estrangeiro
vai de carro para a escola
Não te deixassem folgar
nem cantar na tua língua
Sempre, sempre a trabalhar
para viveres sempre à míngua

Tentando erguer a cabeça
da opressão e da má-sorte
quinhentos anos de luta
quinhentos anos de morte
Imagina, meu amigo
que era assim na tua aldeia
quinhentos anos a fio
mete-os bem na tua ideia

Meu camarada soldado
camarada marinheiro
nem que me dêem mil anos
de penas e cativeiros
hei-de dizer-te a verdade
que trago no coração
Não devemos esconder
os crimes da opressão

A opressão de que falo
chama-se colonial
é a mesma mas mais forte
que a que existe em Portugal
Os livros da nossa escola
sempre esconderam a cara
só nos mostram a coroa
dessa moeda roubada

Monopólios e banqueiros
em África como aqui
quanto mais exploram lá
mais força têm contra ti
Se o fascismo foi abaixo
esses ladrões ainda não
Nossos irmãos africanos
estão a dar essa lição

Meu camarada soldado
camarada marinheiro
nem que me dêem mil anos
de penas e cativeiro
Estou a dizer a verdade
que está no peito a estalar
Não devemos ir à guerra !
Não devemos embarcar !

E os milhares de desertores
que abandonaram a terra
não são medrosos nem traidores
por recusarem a guerra
Porque a nossa guerra é outra
é guerra contra o fascismo
guerra contra a opressão
e contra o capitalismo

Seja qual for a sua cor
seja qual for a nação
em cada trabalhador
devemos ver um irmão
E se formos para a frente
todos juntos de mãos dadas
já seremos cara e coroa
com a vitória apostada

Meu camarada soldado
camarada marinheiro
nem que me dêem mil anos
de penas e cativeiro
Falei-te com sentimento
mas também com a razão
e não há força no mundo
que quebre a nossa união

Viva a Guiné-Bissau
em «A cantiga é uma arma», de 1975, assinado colectivamente pelo Grupo de Acção Cultural (GAC)
Senhoras e senhoras, vamos agora cantare
(Senhoras e senhoras, vamos agora cantare)
A Guiné-Bissau livre e independente
(A Guiné-Bissau livre e independente)
O povo oprimido pega em armas pra lutar
(O povo oprimido pega em armas pra lutar)
Pela Guiné-Bissau livre e independente
(Pela Guiné-Bissau livre e independente)
Guiado por Partido de vitória em vitória
(Guiado por Partido de vitória em vitória)
O sangue dos seus filhos mostram o caminho da história
(O sangue dos seus filhos mostram o caminho da história
)
Da Guiné-Bissau livre e independente
(Da Guiné-Bissau livre e independente)
Viva o PAIGC e viva Amílcar Cabral!
(Viva o PAIGC e viva Amílcar Cabral!)
Da Guiné-Bissau livre e independente
(Da Guiné-Bissau livre e independente)
E viva a FRELIMO e o MPLA
(E viva a FRELIMO e o MPLA)
E a Guiné-Bissau livre e independente
(E a Guiné-Bissau livre e independente)
Angola será livre e Moçambique também!
(Angola será livre e Moçambique também!)
Como a Guiné-Bissau livre e independente
(Como a Guiné-Bissau livre e independente)
Senhoras e senhoras, vamos agora cantare
(Senhoras e senhoras, vamos agora cantare)
A Guiné-Bissau, Moçambique e Angola
(A Guiné-Bissau, Moçambique e Angola)
E os trabalhadores portugueses a africanos
(E os trabalhadores portugueses a africanos)
Irmãos na mesma luta contra os exploradores
(Irmãos na mesma luta contra os exploradores)
Da Guiné-Bissau, Moçambique e Angola
(Da Guiné-Bissau, Moçambique e Angola)
Viva a classe operária e o povo trabalhador!
(Viva a classe operária e o povo trabalhador!)
Da Guiné-Bissau, Moçambique e Angola
(Da Guiné-Bissau, Moçambique e Angola)
(Da Guiné-Bissau, Moçambique e Angola)
(Da Guiné-Bissau, Moçambique e Angola)
(Da Guiné-Bissau, Moçambique e Angola…)
E de Cabo Verde
E de São Tomé
E da ilha do Príncipe
E de Timor
Em vermelho e multidão
em «A cantiga é uma arma», de 1975, assinado colectivamente pelo Grupo de Acção Cultural (GAC)

O homem amordaçado
pela vida de opressão
dura vida de soldado
e feroz exploração

Irão acabar um dia
em vermelho, em multidão

Banqueiros e monopólios
todos eles cairão
quando o povo pegar em armas
fizer a revolução

e conquistar o poder
em vermelho, em multidão

Em luta contra os burgueses
trabalhadores vencerão
Operários e camponeses
um novo mundo farão

Um mundo de liberdade
em vermelho, em multidão

Mas por certo a burguesia
nos fará oposição
com todos os seus lacaios
toda a sua repressão

e teremos que esmagá-los
em vermelho, em multidão

Soldados e marinheiros
suas armas erguerão
ombro a ombro com o povo
para acabar com a exploração

Será a luta final
em vermelho, em multidão

Mas por muita teimosia
muita raiva do vilão
ao romper do novo dia
com o vigor da insurreição

cairá de borco o madraço
asno
grotesto, palhaço
capitalista ladrão

Mas é preciso lutar
pelos dias que virão
É preciso organizar
as forças da revolução

para alcançar a vitória
em vermelho, em multidão

Pois canté !
em «Pois canté!», de 1976, assinado colectivamente pelo Grupo de Acção Cultural (GAC)

Enquanto anda lá no céu a cotovia
Ando a trabalhar o pão de cada dia
Para encher a pança a essa burguesia
Sempre a trabalhar
P’ró patrão gozar
Isto inté qu’há-de mudar um dia
Pois canté!

Os políticos burgueses à porfia
Só nos sabem receitar democracia
Mas o povo é que é levado na tosquia
O senhor ministro
tem a culpa disto
Isto inté qu’há-de mudar um dia
Pois canté!

Tanta propaganda na telefonia
a falar na grande crise da economia
Mas aumenta o desemprego, que ironia
Fala o aldrabão
E ri-se o patrão
Isto inté qu’há-de mudar um dia
Pois canté!

Quando a máquina do lucro se atrofia
A reparação é sempre a carestia
E o Povo é que lhes paga a avaria
Mas o capital
cresce por igual
Isto inté qu’há-de mudar um dia
Pois canté!

O governo continua nessa via
de nos entregar nas mãos da burguesia.
Eles são todos da mesma confraria
Irmãos explorados
Todos lado a lado
Isto inté qu’há-de mudar um dia
Pois canté!

Cantiga sem maneiras
em «Pois Canté!», de 1976, assinado colectivamente pelo Grupo de Acção Cultural

Senhores,
sou mulher de trabalho,
e falo com poucas maneiras,
porque as maneiras,
são como a luva que calça o ladrão.

Ás vezes,
eu ponho-me a pensar,
na vida das trabalhadeiras,
e nas canseiras,
com que ganhamos a fome e o pão.

Há tanta gente como eu,
tantos que pensam como eu,
e a minoria que nos rouba e mente,
são os burgueses que mandam na gente.

Cravos, gravatas e bonés,
nunca vi tantos rapa-pés,
enquanto for o burguês a mandar,
é o fascismo que vai regressar.

Senhores,
sou mulher de trabalho,
e falo paras as trabalhadeiras,
sem as maneiras,
dos democratas da governação.

Ás vezes,
cheguei a acreditar,
que a nova democracia,
acabaria,
com o fascismo e a exploração.

Mas se isto assim continuar,
com os patrões a comandar,
o desemprego e a carestia,
são os canhões que nos querem matar.

E enquanto nos dizem para votar,
já está o burguês a preparar,
outro fascismo de cara mudada,
enquanto a gente anda assim enganada.

Senhores,
sou mulher de trabalho,
estou farta dessas brincadeiras,
são só maneiras,
de nos prenderem com outro cangaço.

Ás vezes,
eu ponho-me a falar,
e digo às minhas companheiras,
outras maneiras,
de nos unirmos para dar mais um passo.

Vamos lutar e sanear,
vamos ser nós a comandar,
com esta luta por um mundo novo,
e os operários à frente a guiar.

E há tanta gente para lutar,
pela democracia popular,
que não há falsos amigos do povo,
que nos impeçam de um dia ganhar.

E há tanta gente para lutar,
pela democracia popular,
que não há falsos amigos do povo,
que nos impeçam de um dia ganhar.

A herdade do Vale Fanado
em «Pois Canté!», de 1976, colectivamente assinado pelo Grupo de Acção Cultural (GAC)

Na Herdade do Val Fanado
terra rica em trigo e gado
freguesia de Albernoa
o povo era explorado
por Mariana Vilhena
burguesa, vil e patroa

Nas terras que ela dizia
serem suas por herança
do nascer ao pôr do sol
Homens, mulheres e crianças
anos e anos a fio
passaram miséria e fome

Até que um dia o povo
de foice e punho no ar
num só grito disse não
Quarenta e um trabalhadores
homens do campo e mulheres
fizeram a ocupação

Ocuparam a Herdade
com as máquinas e o gado
mostrando a essa malvada
que só tem direito à terra
quem com a enxada trabalha
Quem a sua, quem a lavra

Agora os camponeses
da Herdade do Val Fanado
trabalham com alegria
nas terras que já são suas
pois o futuro do seu trabalho
já não vai para a burguesia

As dificuldades virão
porque os ocupantes sabem
que o governo é dos burgueses
Por isso pedem apoio
a todos os seus irmãos

Operários e camponeses
a Herdade do Val Fanado
pede a todos os soldados
operários e camponeses
que se unam e organizem
com o povo de Albernoa
para tirar o poder aos burgueses!

Coro das Maçadeiras
em «Pois Canté !», de 1976, colectivamente assinado pelo Grupo de Acção Cultural
Nota: os versos em a) foram retirados a um canto de trabalho do Minho

a)
Ó minha mãe dos trabalhos
Para quem trabalho eu
Trabalho mato meu corpo
Não tenho nada de meu

Ai lalila ai lalela
Ai lelaló meu bem

b)
quem trabalha passa fome
quem não trabalha é que come

Os senhores do governo
que nos dizem querer bem
aumentaram os adubos
alfaias, rações também

De palavras estamos fartos
acções não as faz ninguém

Só tenho um palmo de terra
para nela trabalhar
e umas mãos que criam calos
fazendo outros engordar

Se tudo muda na vida
isto há-de mudar também

Não nos venham os doutores
com promessas para voltar
Nós queremos democracia
mas com o povo a mandar

Ricos defendendo pobres
nunca eu vi nem viu ninguém

Nunca vi terra dar pão
sem a gente a amanhar
e a nossa vida só muda
se o povo a fizer mudar

Muito povo está na luta
e nós vamos lutar também

Coro dos trabalhadores emigrados
em «Pois canté!», de 1976, colectivamente assinado pelo Grupo de Acção Cultural (GAC)
Na terra nascemos
na terra vivemos
O suor do rosto
vale cada vez menos
Pagamos imposto
e fica o rosto
De um patrão para nos roubar
Terra laborada
com suor regada
Fonte de água clara
banho de morgada
Vamos-te deixando
procurando
o dia de poder voltar
Aí, quem somos nós
Trabalhadores emigrados
da nossa terra expatriados
Até quando, até quando?
Dores, saudades e cansaço por
meia dúzia de ricaços
que trazem Portugal a seu mando
Mas já desponta a nova aurora
Trabalhadores, a nossa hora
vem chegando, vem chegando
O homem só não pode nada
Canta connosco camarada
a vitória que vamos forjando
Campos portugueses
fábricas de França
Com a raiva nos dentes
nunca se descansa
E roubados cá
roubados lá
neste vai-vém de exploração
Fábricas de França
sonho de mudança
Campo abandonado
pela manigância
Trocamos a foice
pelo martelo
Temos um em cada mão
Aí, quem somos nós
Trabalhadores emigrados
da nossa terra expatriados
Até quando, até quando?
Dores, saudades e cansaço por
meia dúzia de ricaços
que trazem Portugal a seu mando
Mas já desponta a nova aurora
Trabalhadores, a nossa hora
vem chegando, vem chegando
O homem só não pode nada
Canta connosco camarada
a vitória que vamos forjando
Quanta solidão
e quanto sacrifício
fica para o patrão
todo o benefício
Tudo como dantes
emigrantes
carne para exportação
Vira vento norte
varre Portugal
Vira sua sorte
varre o capital
Pega no martelo
e na foice
e vira a tua condição
Aí, quem somos nós
Trabalhadores emigrados
da nossa terra expatriados
Até quando, até quando?
Dores, saudades e cansaço por
meia dúzia de ricaços
que trazem Portugal a seu mando
Mas já desponta a nova aurora
Trabalhadores, a nossa hora
vem chegando, vem chegando
O homem só não pode nada
Canta connosco camarada
a vitória que vamos forjando
Campo abandonado
nunca dá semente
Campo conquistado
dá pra toda gente
Viver dignamente
sem o dente
do patrão para nos roubar
Vira vento norte
vira tua sorte
Varre o capital
com teu braço forte
Para que em Portugal
um braço igual
já não precise de emigrar
Aí, quem somos nós
Trabalhadores emigrados
da nossa terra expatriados
Até quando, até quando?
Dores, saudades e cansaço por
meia dúzia de ricaços
que trazem Portugal a seu mando
Mas já desponta a nova aurora
Trabalhadores, a nossa hora
vem chegando, vem chegando
O homem só não pode nada
Canta connosco camarada
a vitória que vamos forjando
Casas sim ! Barracas não !
em «Pois canté !», LP de 1976

Casas Sim! Barracas não!
As casas são do povo
Abaixo a exploração

Vim do campo pra cidade
Terra alheia é maldição
é morrer de sol a sol
por uma côdea de pão
que metade colheita
Vai para os bolsos do patrão

Estava farto de miséria
ver os filhos a chorar
Larguei tudo e vim-me embora
para a cidade trabalhar
Sem dinheiro e sem ter casa
fui pras barracas morar

Casas Sim! Barracas não!
As casas são do povo
Abaixo a exploração

Dizem que quem nasce pobre
e sem dinheiro para estudar
tem de andar sempre de canga
e que tem de se sujeitar
ao que a sorte lhe trouxer
e às migalhas que apanhar

Essa sorte eu a renego
que só dá sorte ao patrão
é conversa de quem quer
continuar a exploração
Vou lutar que a minha sorte
há-de sair da minha mão

Casas Sim! Barracas não!
As casas são do povo
Abaixo a exploração

Sou operário sou pedreiro
trabalho na construção
Sou eu quem constrói as casas
para os burgueses, para o patrão
Dou palácios aos senhores
e vivo num barracão

A canalha que me explora
tem tudo o que quer à farta
Chalés no campo e na praia
para a amante e para a gata
tudo à minha custa e enquanto
eu vivo num bairro de lata

Casas Sim! Barracas não!
As casas são do povo
Abaixo a exploração

Mas já basta de miséria
isto agora vai ser diferente
Não haja gente sem casa
enquanto houver casas sem gente
Pelo fim da exploração
marchemos todos em frente

Todos bem organizados
partiremos à conquista
Esmagaremos para sempre
a opressão capitalista
Liberdade para o povo
numa pátria socialista

Prólogo
em «A Mãe», LP de 1978

Meus senhores, vamos agora contar
uma história que não é para chorar

Abrir os olhos à vida
Não há razão proibida
de pensar

Quantas mães estão aqui para me escutar ?
Quanto amor para aprender e desejar?

A semente perde a calma
É tão lindo ver as almas
a acordar

Versão não publicada em disco:

Meus amigos… meus amigos: ouvi bem !
Estamos aqui reunidos
mais ou menos divertidos
Alguns cansados, também
das voltas que a vida tem
Se não me levam a mal
vamos agora contar
uma história popular
a tantas outras igual
mas nem por isso banal
Que a vida é tão desigual
tem tantas vidas diferentes
que o empreendimento da gente
já considera anormal
ver a vida tal e qual

Por isso, agora, ouvi bem:
A história que vou contar
ensina-nos a chamar
as coisas pelo seu nome:

um bicho é um bicho, um homem é um homem

Cada um tem sua hora
de verdade e de mentira
e assim como o vento vira
também os ventos de história
não perdem pela demora

Quantas mães há nesta sala ?
Quantos filhos que trabalham ?
Quantos de nós se esfrangalham
na vida para ganhá-la
para perdê-la e salvá-la?

Vamos então começar:
É a história de uma mãe
como a mãe que a gente tem
que está para ali a chorar
as penas do seu penar

As canseiras desta vida
em «A Mãe», LP de 1978

As canseiras desta vida
tanta mãe envelhecida
a escovar
a escovar
a jaqueta carcomida
fica um farrapo a brilhar

Cozinheira que se esmera
faz a sopa de miséria
a contar
a contar
os tostões da minha féria
a a panela a protestar

Dás as voltas ao suor
fim do mês é dia trinta
e a sexta é depois da quinta
sempre de mal a pior

E cada um se lamenta
que isto assim não pode ser
que esta vida não se aguenta
O que é que se há-de fazer?

Corta a carne, corta o peixe
não há pão que o preço deixe
a poupar
a poupar
a notinha que se queixa
tão difícil de ganhar

Anda a mãe do passarinho
a acartar o pão para o ninho
a cansar
a cansar
com a lama do caminho
só se sabe lamentar

Dás as voltas ao suor
fim do mês é dia trinta
e a sexta é depois da quinta
sempre de mal a pior

E cada um se lamenta
que isto assim não pode ser
que esta vida não se aguenta
O que é que se há-de fazer?

É mentira, é verdade
vai o tempo, vem a idade
a esticar
a esticar
a ilusão de liberdade
para morrer sem acordar

É na morte ou é na vida
que está a chave escondida
do portão
do portão
deste beco sem saída
Qual será a solução?

Dás as voltas ao suor
fim do mês é dia trinta
e a sexta é depois da quinta
sempre de mal a pior

E cada um se lamenta
que isto assim não pode ser
que esta vida não se aguenta
O que é que se há-de fazer?

Águas paradas não movem moinhos
em «A Mãe», LP de 1978

Não gosto nada de ver o meu filho na companhia desta gente. Desinquietam-no e ainda acabam por metê-lo nalguma. Está sempre a ler livros e não faz a vida dos rapazes da idade dele. É tão diferente do pai. Quando entrou para a fábrica ficou satisfeito por ter trabalho. Ganhava pouco. Neste último ano passou a ganhar cada vez menos. Se continuam a fazer descontos prefiro ser eu a deixar de comer. Que posso eu fazer viúva de um operário e mãe de um operário ? Mas preocupa-me que leia estes livros e que em lugar de aproveitar a noite vá a reuniões que só servem para desinquietá-lo cada vez mais. Ainda acaba por perder o emprego.

Se te falta a sopa para o prato
se te falta a sopa para o prato
como é que pensas comer ?
Como é que pensas comer
se te falta a sopa para o prato ?

Esta vida eu arrenego
e vou virar o bico ao prego
Debaixo da minha fome
é o Estado que se encobre

Para a sopa do meu menino
águas paradas não movem moinhos

Se o patrão não te dá trabalho
se o patrão não te dá trabalho
onde é que está o salário ?
Onde é que está o salário
se o patrão não te dá trabalho ?

Para acabar o desemprego
vou virar o bico ao prego
Andamos para aqui aflitos
porque o governo é dos ricos

Ponho a miséria a render
águas paradas não movem moinhos

Os fortes riem dos fracos
os fortes riem dos fracos
O que é que vais responder ?
O que é que vais responder
se os fortes riem dos fracos ?

Na unidade é que eu pego
para virar o bico ao prego
Milhões de trabalhadores
são a força que tu fores

Anda para a luta comigo
Águas paradas não movem moinhos

Remendos e côdeas
em «A Mãe», LP de 1978

Não acho bem que distribuam folhetos destes na fábrica enquanto duram as negociações. Aí vem o Alves. Sempre quero ver o que ele conseguiu.
Colegas, chegámos a um acordo.
Que espécie de acordo ? Ganhámos ?
Apresentámos os nossos cálculos ao patrão e demonstrámos-lhe que com a redução dos nossos oitocentos salários ele ia meter ao bolso duas mil notas por ano. Tínhamos de impedi-lo, custasse o que custasse, e conseguimo-lo, após uma batalha de quatro horas.
Ganhámos ou não ?
Colegas, a lixeira à entrada da fábrica representa um perigo constante.
Ganhámos ou não ?

Sempre que se rompe o casaco do pobre
aparecem uns doutores que descobrem
que assim não pode ser
há que achar remédio seja lá como for

Vão então negociar com os senhores
enquanto cá fora os trabalhadores
ao frio esperam que eles voltem triunfantes
com um belo remendo

Remendo sim pois bem mas onde é que ficou
o casaco todo?

Sempre que gritamos “basta, temos fome!”
aparecem uns doutores que descobrem
que assim não pode ser
há que achar remédio seja lá como for

Vão então negociar com os senhores
enquanto cá fora os trabalhadores
cheios de fome até que voltam triunfantes
com uma bela côdea

Côdea sim pois bem mas onde é que ficou
a carcaça toda?

Nós não precisamos só desse remendo
precisamos do casaco por inteiro

Nós não queremos ficar só com essa côdea
precisamos de comer o pão inteiro

Não nos basta que o patrão nos dê trabalho
precisamos de mandar nas oficinas, nos campos e nas minas
no poder de Estado
Disso é que precisamos

Mas o que é que essa gente tem para oferecer?
Remendos e côdeas

1º de Maio
em «A Mãe», LP de 1978

Quando nós, operários da fábrica Arial, chegámos ao mercado, encontrámo-nos com os manifestantes das outras fábricas, que já eram muitos milhares. Levávamos cartazes que diziam: Operários, apoiai a nossa luta contra a redução dos salários! Operários, uni-vos! Desfilávamos calma e ordeiramente. Cantava-se A Internacional e outros hinos revolucionários. A nossa fábrica marchava directamente atrás da grande bandeira vermelha. Atrás de mim seguia a minha mãe. Quando foram buscar-nos de manhã cedo, ela saiu da cozinha já pronta, e quando lhe perguntaram onde ia, respondeu: Vou com vocês. Tal como ela, seguiam-nos muitos outros, que o rigor do inverno, a redução dos salários e o nosso trabalho de agitação tinham trazido até nós. Antes de chegarmos à avenida, cruzámos alguns polícias. Não víamos soldados. Mas desde a esquina da avenida com a praça, deparou-se-nos subitamente um duplo cordão de soldados. Ao avistarem a nossa bandeira e os nossos cartazes, houve uma voz que gritou: Atenção! Dispersar, ou disparamos! E fora com a bandeira! Sustivemos a marcha. Mas como a retaguarda não parou, foi impossível irmos a tempo de conter o avanço. E agora já havia tiros. Quando os primeiros manifestantes começaram a cair estabeleceu-se a confusão geral. Muitos não acreditavam no que viam. Depois os soldados carregavam sobre a multidão. A minha mãe decidira acompanhar-nos para demonstrar o seu apoio à causa dos trabalhadores. Os manifestantes eram pessoas honestas, dizia. Tinham trabalhado a vida inteira. É claro que também havia desesperados que o desemprego tornara capazes de tudo, e também muita gente faminta demasiado fraca para poder defender-se. Continuávamos à frente e não dispersámos quando os tiros começaram. Tínhamos a nossa bandeira. Era o Luís que a levava e não tencionávamos largá-la. Não trocáramos uma só palavra, mas pareceu-nos suficientemente importante que nos atingissem e abatessem precisamente a nós. Que nos arrancassem a bandeira. A nossa. A vermelha. Queríamos que todos os trabalhadores vissem quem somos e por quem somos, reconhecessem que somos os trabalhadores. Os que nos atacavam portavam-se como feras. Precisavam de ganhar a vida e os patrões pagavam-lhes para isso. Mas todos acabariam por compreendê-lo. Por isso a nossa bandeira, a bandeira vermelha, tinha de ser levantada bem alto, à vista dos soldados e de todos os outros. E aos que não viram é preciso contá-lo. Hoje ainda, ou amanhã, ou nos próximos anos, até ela voltar a ser vista, pois julgamos saber, e muitos já o sabem, que ela voltará sempre a ser vista, até ao dia em que tudo será totalmente transformado. E esse dia aproxima-se. A nossa bandeira, a mais perigosa para todos os exploradores e todos os tiranos. A mais implacável. Mas para nós, trabalhadores, a bandeira de combate decisivo. Por isso, voltareis sempre a vê-la, com alegria ou ódio, conforme a vossa opção nesta luta, que só poderá terminar com a vitória completa de todos os oprimidos de todos os países do mundo. Mas nesse dia era o operário Luís que a levava. Há vinte anos que pertence ao movimento. Foi um dos primeiros a divulgar na fábrica os ideais revolucionários: Lutamos por salários e por melhores condições de trabalho. Negociou várias vezes com os patrões em defesa dos interesses dos seus colegas. A princípio houve fraca disponibilidade, mas depois admitiu que houvesse um caminho mais fácil. Se a nossa influência aumentasse, caber-nos-ia a nós, também, decidir. Viu, porém, que se enganou. Ei-lo aqui, com milhares de outros atrás, enfrentando como sempre a violência. Entregamos ou não a bandeira, perguntou. Não, Luís, não entregues. É inútil negociar, dissemos. E a mãe disse-lhe: Não há razão para pidesco. Nada poderá suceder-te. A polícia não pode ter nada contra uma manifestação pacífica. E nesse instante o oficial da polícia gritou: Entreguem a bandeira! E o Luís olhou para trás, e viu de viés a bandeira ao pé dos cartazes e nos cartazes as nossas soluções, e atrás dos cartazes grevistas da nossa fábrica. E nós ficámos a ver o que ele ali junto a nós, um de nós, faria com a bandeira. Vinte anos de movimento operário-revolucionário. No dia primeiro de Maio às onze horas da manhã, desde o meio da avenida, no momento decisivo disse: Não a dou! Não haverá negociações. Muito bem, Luís, é assim mesmo! Agora está tudo em ordem! Mas tombou à frente com a cara no chão pois eles já o tinham abatido. E corremos alguns quatro ou cinco a segurar na bandeira. Mas ela caíra ao lado da minha mãe. Então a minha mãe, a serena, a pacífica, a camarada, curvou-se, pegou na bandeira. Entreguem-me a bandeira, disse ela. Entreguem-me a bandeira. Eu levo-a. As coisas têm que mudar.

Qual é coisa, qual é ela (Elogio do Comunismo)
em «A Mãe», LP de 1978

Mas afinal o que é o comunismo ?

Qual é coisa, qual é ela, que é tão simples, tão sensata
como a sopa na panela
como um sorriso de prata
das crianças esquecidas ?

Qual é coisa, qual é ela, que não sabes o que é
mas andas sempre atrás dela
dor a dor, pé ante pé
a jogar às escondidas ?

Quente, quente, companheiro um passo mais
se és explorado como tantos teus iguais
hás-de entender como vencer a exploração
Abre os olhos para o futuro olha o fruto já maduro
na raiz da tua condição

Qual é coisa, qual é ela, para os ricos horrorosa
mas para os pobres a mais bela
Para os ricos criminosa
e para os pobres justiça ?

Qual é a rosa de maio que gela o riso nervoso
do patrão e do lacaio ?
Não agrada ao cobiçoso
porque é o fim da cobiça

Quente, quente, companheiro um passo mais
Se és explorado como tantos teus iguais
hás-de entender como vencer a exploração
Abre os olhos para o futuro olha o fruto já maduro
na raiz da tua condição

Qual é coisa, qual é ela, que é possível conquistar se a gente lutar por ela
que não é para complicar mas sim para resolver ?
A nova ordem que acaba
com a diferença de classe entre o que come e o que lavra

Qual é coisa que é tão fácil tão difícil de fazer ?
Quente, quente, companheiro um passo mais
se és explorado como tantos teus iguais hás-de entender como vencer a exploração
Abre os olhos para o futuro olha o fruto já maduro
Na raiz da tua condição

ABC (Elogio da aprendizagem)
em «A Mãe», LP de 1978

Querem, portanto, que lhes ensine a ler. Francamente não vejo de que possa servir-lhes e já não estão em idade para isso. Mas vou tentar, em atenção à senhora Maria. Há gerações e gerações que vêm acumulando conhecimentos sobre conhecimentos. A técnica nunca esteve tão avançada. E para quê ? A confusão nunca chegou a tanto. Oponha-se à ciência.
– Diga-me lá como é que se escreve luta de classes ?
– Mas não é a ciência que ajuda, é a bondade.
Se não precisa da sua ciência passe-a para nós.

Aprende o ABC
Conquista o ABC
Tens que ajustar as contas com o saber
Três vezes sete são
muitos trunfos na mão
Para quem tem a história para escrever
Não percas tempo aprende que o sol já lá vem!

Vá ! Não demores !
Aprende, que a hora é de tu assumires o comando

Aprende no serão
Aprende na prisão
Transforma a tua fome num livro aberto
Anda trabalhador
corrige esse doutor
com a tinta vermelha do teu saber
Não percas tempo aprende que o sol já lá vem!

Vá ! Não demores !
Aprende, que a hora é de tu assumires o comando

Com os teus olhos vê
a força do ABC
arma a cabeça antes de armar a mão
pega no livro e lê
Na conta vê o que quê
que és sempre tu que pagas essa lição
Não percas tempo aprende que o sol já lá vem

Vá ! Não demores !
Aprende, que a hora é de tu assumires o comando

Vá ! Não demores !
Aprende, que a hora é de tu assumires o comando

Vá ! Não demores !
Aprende, que a hora é de tu assumires o comando

Os meninos de amanhã (Elogio do revolucionário)
em «A Mãe», LP de 1978

– O Carlos tem-lhe escrito?
– Não, ando muito inquieta por sua causa. O que mais me preocupa é não saber o que está a fazer ou o que lhe estão a fazer. Nem sequer sei se lhe dão de comer o suficiente e se não o deixam passar frio. Mas sinto um grande orgulho nele. Tenho sorte. O meu filho é útil.

Os meninos de amanhã
vão acordar num mundo novo
com a estrela da manhã
a iluminar o bem do povo

E nos livros da escola
ouvirão contar
quantas lutas se travaram
para a vida mudar

Os meninos saberão
o amor dos revolucionários
que lutaram sem descanso
para mudar este fadário

E as memórias vigilantes
saberão contar
essas vidas que se deram
sem desanimar

Há tanta gente virada para trás
gente do menos mal
e do tanto-faz
Mas o amor em que eu estou a pensar
anda remando contra a maré
a desinquietar

Os meninos de amanhã
verão o corpo dessa ideia
que perturba o rame-rame
com a revolta que semeia

E ao colo da liberdade
ouvirão contar
o pão-pão e o queijo-queijo
que te anda a faltar

Vão encontrar o tesouro
dentro do punho fechado
do discreto combatente
que está aí mesmo a teu lado

E das bocas saciadas
ouvirão contar
os porquês insatisfeitos
que o fazem lutar

Há tanta gente virada para trás
gente do menos mal
e do tanto-faz
Mas o amor em que eu estou a pensar
anda remando contra a maré
a desinquietar

Nada os salvará
em «A Mãe», LP de 1978

Eles têm as suas leis, códigos, decretos
editais e portarias
Eles têm as prisões e as fortalezas
sem contar as tutorias
Têm carcereiros e juízes
Que são pagos com bom dinheiro
e estão prontos a tudo
Mas de que lhes servirão
tantas instituições?
Um minuto antes do fim
verão que já estão perdidos
que nada os salvará
Eles têm folhetins, televisão e rádio
os jornais e as revistas
Eles têm os diplomas e o papel selado
sem contar os estadistas
Os padres e os senhores doutores
Que são pagos com bom dinheiro
e estão prontos a tudo
Mas de que lhes servirão
tantas mentiras
Um minuto antes do fim
verão que já estão perdidos
que nada os salvará
Eles têm os canhões e as metralhadoras
as chaimites e as granadas
Eles têm capacetes e espingardas
sem contar as bastonadas
Têm os polícias e os guardas
que pagam com pouco dinheiro
mas estão prontos a tudo
Mas de que lhes servirá
tamanho arsenal ?
Um minuto antes do fim
verão que já estão perdidos
que nada os salvará

Camarada Maria Rodrigues
em «A Mãe», LP de 1978

Ora aqui temos a nossa amiga
Camarada Maria Rodrigues
sempre firme na sua luta
prestável e astuta
passo-a-passo, dia-a-dia
indispensável a nossa Maria

A Maria nunca está sozinha
nesta grande luta miudinha
todas as Marias do mundo
exército profundo
lutadores do dia-a-dia
indispensáveis como esta Maria

O Terceiro Amigo
em «A Mãe», LP de 1978

Quantas mães perdem os filhos
seja na morte ou na vida
Mas eu fico bem servida, ai, meu rico filho
que o tenho sempre comigo
graças ao Terceiro Amigo

Saiu-me o filho do corpo
escolheu o seu caminho
Mas eu não fiquei sozinha, ai, meu rico filho
que estou presa ao teu umbigo
graças ao Terceiro Amigo

Sentados a conversar
pais e filhos entretidos
Mas nós somos mais unidos, meu rico filho
O que dizes e o que eu digo
graças ao Terceiro Amigo

É tão grande esta família
tantas mãos num só olhar
Nada nos vais separar, ai, meu rico filho
somos do mesmo partido
nosso bom Terceiro Amigo

Cantiga de alevantar
em «A Mãe», LP de 1978

A mãe está doente desde que o filho morreu. Continua a ocupar-se do trabalho caseiro, mas o outro trabalho a que costumava dedicar-se, esse abandonou-o. E, afinal, o que podemos nós fazer contra o Estado e as grandes potências ? Eles não descansarão enquanto não nos destruírem completamente.

Levanta a cabeça, oh!
Levanta, camarada, ai alevanta, oh!
Ai, tu pareces tão cansadinha, oh!
Tão parada, tão sozinha, oh !
que até parece que já nem te conheço !

Levanta a cabeça, oh!
Levanta, camarada, ai alevanta, oh !
Vai às tripas, vai às tripas, camarada !
Vai à barriga vazia, vai à tua linda ideia
e à razão e à alegria

Pega na forcinha pouca
põe ao sol e deixa cozer
e anda lavrar o teu campo de alegria
Levanta agora, ai alevanta, oh!
Levanta, camarada, oh!

E olha, vê bem, limpa a vista
e olha a tua força pouca
que é como a semente pequenina
que fecunda o campo inteiro
e há-de encher o celeiro

E olha a pedrinha pequena, lá no meio da muralha
e olha a pedrinha, ai pedrinha, oh!
Levanta, acima, acima, alevanta oh!
Levanta a pedrinha, pedra grande, oh!
E anda mulher, cresce sempre, oh!

Pedrinha, oh!
Levanta a pedrinha, oh!
Tapa o buraco aberto por onde o inimigo quer furar !
Levanta, oh!
Pedrinha, oh!

Eu, Maria Rodrigues, viúva de um operário e mãe de um operário, tenho ainda tanto que fazer. Quando aqui há uns anos vi que o meu filho já não podia matar a fome, inquietei-me e comecei por me lamentar. As coisas continuaram na mesma. Depois ajudei-o na luta pelo salário. Nessa altura fazíamos pequenas greves. Hoje lutamos pelo poder de Estado. Muitos dizem que devemos dar-nos por satisfeitos com o que temos, que o poder dos opressores está bem seguro, que acabaremos sempre por ficar derrotados, que aquilo que nós queremos não virá nunca. Aquele que está vivo não diga nunca, nunca.

E agora, alevanta, agora, oh!
Levanta agora, camarada, oh!
Levanta agora, pedrinha, oh!
E agora levanta a pedrinha, oh!
Levanta a pedrinha, camarada !
E agora levanta a pedrinha, oh!

Aquele que está vivo que não diga nunca nunca
em «A Mãe», LP de 1978

Aquele que está vivo
não diga nunca nunca
pois o que parece certo
Nunca é definitivo

Aquele que se cansa
não diga nunca nunca
que por entre a noite escura
já o dia é uma criança

Ontem, hoje e amanhã
sempre o sol renascerá
para iluminar a multidão que se levanta!
Anda!

Não atrases o futuro, tira o nunca da memória
Não pares de lutar
Pedra a pedra faz o muro crescer com a vitória
que o mundo há-de mudar !

Aquele que está vivo
não diga nunca nunca
pois aquele que não luta
é de si mesmo cativo

A vida só não muda
se tu ficares parado
esperando a morte lenta
com o nunca atravessado

Ontem, hoje e amanhã
Sempre o sol renascerá
Para iluminar a multidão que se levanta!
Anda!

Não atrases o futuro, tira o nunca da memória
Não pares de lutar
Pedra a pedra faz o muro crescer com a vitória
que o mundo há-de mudar !

As coisas são as coisas
e são o seu contrário
O destino que diz nunca
é o conto do vigário

O nunca é agora
e agora é a luta
contra o hoje em que te explora
o senhor que te desfruta

Ontem, hoje e amanhã
sempre o sol renascerá
Para iluminar a multidão que se levanta!
Anda!

Não atrases o futuro, tira o nunca da memória
Não pares de lutar
Pedra a pedra faz o muro crescer com a vitória
que o mundo há-de mudar !

Eu vi este povo a lutar
em «A Confederação», LP (banda sonora) de 1978

Eu vi este povo a lutar
para a sua exploração acabar
sete rios de multidão
que levavam a História na mão

Sob as águas calmas
um vulcão de fogo
toda a terra treme
nas vozes deste povo

Mesmo no silêncio
sabemos cantar
povo por extenso
é unidade popular

Somos sete rios
rios de certeza
vamos lá cantando
no fragor da correnteza

Eu vi este povo a lutar
para a sua exploração acabar
sete rios de multidão
que levavam a História na mão

A fruta está podre
já não se remenda
só bem cozidinha
no lume da contenda

Nós queremos trabalho
e casa decente
e carne do talho
e pão para toda a gente

Ai, meus ricos filhos
tantos nove meses
saem do meu ventre
para a pança dos burgueses

Eu vi este povo a lutar
para a sua exploração acabar
sete rios de multidão
que levavam a História na mão

Alça, meu menino
vê se te arrebitas
que este peixe podre
só é bom para os parasitas

Só a nosso mando
é que há liberdade
vamos lá lutando
para mudar a sociedade

Bandeira vermelha
bem alevantada
Ai, minha senhora
que linda desfilada

Eu vi este povo a lutar
para a sua exploração acabar
Sete rios de multidão
que levavam a História na mão

Eu vi este povo a lutar
para a sua exploração acabar
Sete rios de multidão
que levavam a História na mão

Ai, meu trigo lindo
em «A Confederação», LP (banda sonora) de 1978

Eu vi este povo a lutar
para a sua exploração acabar

Sinto lágrimas na garganta
e a morte no olhar das crianças

Ai meu trigo lindo, meu trigo trigueiro
visam-te as sementes os senhores do dinheiro

Lágrimas de sangue, boca de secura
levanta a cabeça que esta luta é muito dura

Lágrimas de fogo, garras de agonia
morrer ou matar, é a lei da burguesia

Operários e camponeses
em «A Confederação», LP (banda sonora) de 1978

Venham os operários, lá das oficinas
os da construção, dos estaleiros e das minas

Somos as toupeiras do amanhecer
nossa escravidão é para o rico enriquecer

Olhos de silêncio e risco de morte
anda cá irmão que eu arrenego desta sorte

Eu vi este povo a lutar
para a sua exploração acabar

Temos um martelo na mão
para abater os muros desta prisão

Somos jornaleiros e lavradores pobres
regamos a terra com miséria e com suores

E o senhor cacique fica regalado
de paredes meias com as rezas do abade

Monda, mondadeira, as ervas daninhas
deita a sementeira contra a peste das campinas

Eu vi este povo a lutar
para a sua exploração acabar

Temos as enxadas na mão
para abater os muros desta prisão

O Ali Babá dos quarenta ladrões
não nos vencerá porque os pobres são milhões

Somos sete rios, rios de mãos dadas
vamos lá cantando que ainda a luta vai no adro

Quando o povo avança, em grande unidade
treme logo a pança do burguês com ansiedade

Eu vi este povo a lutar
para a sua exploração acabar

Vamos todos em unidade
conquistar o nosso Abril de verdade

Quando a raiva se faz canção
quando o povo se faz canhão
estremece a burguesia

Dizia a Maria da Fonte
Pela Santa Liberdade
não se perca nem um dia

Moncorvo, torre e gente
em «Gente do Norte», Single (banda sonora) de 1978

Foi das pedras
foi das pedras e das águas
do calor, do rosmaninho
foi da torga, foi das fráguas
que nasceu
este império pequenino

Foi do sol
foi do sul e foi do gelo
foi do sonho e da roda
do Picôto e do Covêlo
que nasceu
este império à nossa moda

Moncorvo, torre e gente
pobre-rica, rica-pobre
nobre-serva, serva-nobre
entre passado e presente
entre presente e ausente

Moncorvo, torre e gente
pobre-rica, rica-pobre
nobre-serva, serva-nobre
entre passado e presente
entre presente e ausente

Foi do calo, da enxada
e da enxurrada
foi da pedra descoberta
da terra desempedrada
que nasceu
esta mina já deserta

Foi do roxo
foi do arrojo e do Douro
do tesouro de caliça
foi do velho e do vindouro
que nasceu
o sangue da Vilariça

Moncorvo, torre e gente
pobre-rica, rica-pobre
nobre-serva, serva-nobre
entre passado e presente
entre presente e ausente

Moncorvo, torre e gente
pobre-rica, rica-pobre
nobre-serva, serva-nobre
entre passado e presente
entre presente e ausente

Moncorvo, torre e gente
pobre-rica, rica-pobre
nobre-serva, serva-nobre
entre passado e presente
entre presente e ausente

Moncorvo, torre e gente
pobre-rica, rica-pobre
nobre-serva, serva-nobre
entre passado e presente
entre presente e ausente

Cantar de viúva de emigrante
em «Gente do norte», Single (banda sonora) de 1978

A semente do meu trigo
está noutra terra a criar
Este chão que é meu amigo
está como eu a esperar

E o meu lindo sol de Abril
que anda a brilhar deste lado
traz o meu amor contigo
que está tão longe emigrado

Tanto velho, tanto ninho
tanta mulher sem amor
Não há pão para o meu carinho
mas há para tanto doutor

Fim de festa
em «Marchas Populares», EP de 1978 (recuperada em 2018 em «Inéditos 1967-1999»)
São João do Porto
em «Marchas Populares, EP de 1978 (recuperada em 2018 em «Inéditos 1967-1999»)
Nota: Autoria partilhada com João Lóio
Travessia do deserto
em «Ser solidário», LP de 1982

Que caminho tão longo
que viagem tão comprida
que deserto tão grande
sem fronteira nem medida

Águas do pensamento
vinde regar o sustento
da minha vida

Este peso calado
queima o sol por trás do monte
queima o tempo parado
queima o rio com a ponte

Águas dos meus cansaços
semeai os meus passos
como uma fonte

Ai que sede tão funda
ai que fome tão antiga
Quantas noites se perdem
no amor de cada espiga ?

Ventre calmo da terra
leva-me na tua guerra
se és minha amiga

Que caminho tão longo
que viagem tão comprida
que deserto tão grande
sem fronteira nem medida

Águas do pensamento
vinde regar o sustento
da minha vida

Este peso calado
queima o sol por trás do monte
queima o tempo parado
queima o rio com a ponte

Águas dos meus cansaços
semeai os meus passos
como uma fonte

Ai que sede tão funda
ai que fome tão antiga
Quantas noites se perdem
no amor de cada espiga ?

Ventre calmo da terra
leva-me na tua guerra
se és minha amiga

Que deserto grande

Nota: Letra inspirada num poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

Vá...vá...
em «Ser solidário», LP de 1982

Quando estou sentado à mesa deste café
sinto vocação de pensador engagé
mas o peso da consciência no peito

não consigo suportar este remorso
tenho que fazer um pequenino esforço
Vou mudar de vida, ai isso é que vou !

Ponho escritos sobre a mesa deste café
ponho escritos na consciência de boa fé
mas o peso da coerência no peito

não consigo suportar este remorso
tenho que fazer um pequenino esforço
Vou mudar de vida, ai isso é que vou!
Vá… vá…

Amigo, sente-se à mesa deste café
vou fazer-lhe uma surpresa por ser quem é
trago uma velinha acesa no peito

Não consigo suportar este remorso
tenho que fazer um pequenino esforço
vou mudar de vida, ai isso é que vou!
Vá… vá…

Mas nem tudo são desgraças neste café
eu vou-me ligar às massas deste café
para ver se esta dor me passa no peito

Não consigo suportar este remorso
tenho que fazer um pequenino esforço

Sim?
Pois, quer dizer…
Bem… Sim, sim
Não, nem tanto
É pá… percebes, pá? Isto, pá…
Quer-se dizer, pá…
Enfim, pá
Bom, bom, ’tá bem
É pá, é tudo uma questão de coerência, não é?
Coerência…
Pronto, pronto
Bem, ’tá bem… É pá…
‘Pera aí, pá, ‘pera aí, pá, ‘pera aí, homem!
É pá, não, pá

Vá, vá
Bardamerda…

Fado Penélope
em «Ser solidário», LP de 1982

Sagrado é este fado que te canto
do fundo da minha alma tecedeira
Da noite do meu tempo me levanto
e nasço feito dia à tua beira

Passei por tantas portas já fechadas
com a dor de me perder pelo caminho
A solidão germina nas mãos dadas
que dão a liberdade ao passarinho

que dão a liberdade ao passarinho

E enquanto o meu amor anda em viagem
fazendo a guerra santa ao desespero
eu encho o meu vazio de coragem
fazendo e desfazendo o que não quero

fazendo e desfazendo o que não quero

A fome de estar vivo é tão intensa
paixão que se alimenta do perigo
De o chão em que se inscreve a minha crença
Só ter por garantia ser antigo

Só ter por garantia ser antigo

Qual é a tua, ó meu ?
em «Ser solidário», LP de 1982

Qual é a tua, ó meu?
Andares a dizer quem manda aqui sou eu?
Qual é a tua, ó meu?
Nesse peditório o pessoal já deu

Qual é a tua, ó meu?
Andares a dizer quem manda aqui sou eu?
Qual é a tua, ó meu?
Nesse peditório o pessoal já deu

Com trinta por uma linha
esburacaste a Liberdade
e a Alegria
É só puxar a Pontinha
cai o Carmo e a Trindade
no mesmo dia

Com tanta Ladra no mundo
O teu Rato andava à caça
dos Sapadores
Quanto mais a dor Dafundo
menos a gente acha Graça
aos ditadores

Qual é a tua, ó meu?
Andares a dizer quem manda aqui sou eu?
Qual é a tua, ó meu?
Nesse peditório o pessoal já deu.

Qual é a tua, ó meu?
Andares a dizer quem manda aqui sou eu?
Qual é a tua, ó meu?
Nesse peditório o pessoal já deu.

O Intendente semeou
o Desterro e o Calvário
sem nenhum dó
Mas Santa Justa acordou
porque a Voz do Operário
não Fala-Só

Pedes Ajuda e Mercês
mas só Palhavã vais pondo
no nosso prato
Engarrafa-se o Marquês
e cai o Conde Redondo
mais o Beato (ouvistes, pá ?)

Qual é a tua, ó meu?
Andares a dizer quem manda aqui sou eu?
Qual é a tua, ó meu?
Nesse peditório o pessoal já deu.

Qual é a tua, ó meu?
Andares a dizer quem manda aqui sou eu?
Qual é a tua, ó meu?
Nesse peditório o pessoal já deu.

Sem Socorro, ardeu-te a tenda
mas tu ficas Entrecampos
a ver se escapas (até choras !)
Mas como não tens Emenda
vais com Baixa de sarampo
para a Buraca

Não é possível meter
Águas Livres numa Bica
como tu queres
Quem pensa assim, podes crer,
Campo Grande ou de Benfica
é nos Prazeres (estás a ouvir, ó Meco?)

Qual é a tua, ó meu?
Andares a dizer quem manda aqui sou eu?
Qual é a tua, ó meu?
Nesse peditório o pessoal já deu (tira a mão da fruta!)

Qual é a tua, ó meu?
Andares a dizer quem manda aqui sou eu?
Qual é a tua, ó meu?
Nesse peditório o pessoal já deu

Nesse peditório o pessoal já deu
Nesse peditório o pessoal já deu (confere !)

Eu vim de longe
em «Ser solidário», LP de 1982

Quando o avião aqui chegou
quando o mês de Maio começou
eu olhei p’ra ti
e então eu entendi
foi um sonho mau que já passou
foi um mau bocado que acabou

Tinha esta viola numa mão
uma flor vermelha noutra mão
tinha um grande amor
marcado pela dor
e quando a fronteira me abraçou
foi esta bagagem que encontrou

Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei pr’aqui chegar
Eu vou p’ra longe
p’ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p’ra nos dar

E então olhei à minha volta
vi tanta esperança andar à solta
que não hesitei
e os hinos que cantei
foram frutos do meu coração
feitos de alegria e de paixão

Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei pr’aqui chegar
Eu vou p’ra longe
p’ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p’ra nos dar

Quando a nossa festa se estragou
e o mês de Novembro se vingou
eu olhei p’ra ti
e então eu entendi
foi um sonho lindo que acabou
houve aqui alguém que se enganou

Tinha esta viola numa mão
coisas começadas noutra mão
Tinha um grande amor
marcado pela dor
e quando a espingarda se virou
foi p’ra esta força que apontou

Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei pr’aqui chegar
Eu vou p’ra longe
p’ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p’ra nos dar

E então olhei à minha volta
vi tanta mentira andar à solta
que me perguntei
se os hinos que cantei
eram só promessas e ilusões
que nunca passaram de canções

Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei pr’aqui chegar
Eu vou p’ra longe
p’ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p’ra nos dar

Quando finalmente eu quis saber
se ainda vale a pena tanto qu’rer
eu olhei p’ra ti
e então eu entendi
é um lindo sonho p’ra viver
quando toda a gente assim quiser

Tenho esta viola numa mão
tenho a minha vida noutra mão
tenho um grande amor
marcado pela dor
e sempre que Abril aqui passar
dou-lhe este farnel p’rò ajudar

Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei pr’aqui chegar
Eu vou p’ra longe
p’ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p’ra nos dar

E agora eu olho à minha volta
vejo tanta raiva andar à solta
que já não hesito
e os hinos que repito
são a parte que eu posso prever
do que a minha gente vai fazer

Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei pr’aqui chegar
Eu vou p’ra longe
p’ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p’ra nos dar

Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei pr’aqui chegar
Eu vou p’ra longe
p’ra muito longe
onde nos vamos encontrar

Eu vim de longe
de muito longe
Eu vou p’ra longe
p’ra muito longe

Eu vim de longe
de muito longe
Eu vou p’ra longe
p’ra muito longe

Eu vim de longe
de muito longe
Eu vou p’ra longe
p’ra muito longe

Inquietação
em «Ser solidário», LP de 1982

A contas com o bem que tu me fazes
a contas com o mal por que passei
com tantas guerras que travei
já não sei fazer as pazes

São flores aos milhares entre ruínas
meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
é só inquietação, inquietação
porquê não sei, porquê não sei
porquê não sei  ainda

Há sempre qualquer coisa que está pr’acontecer
qualquer coisa que eu devia perceber
porquê não sei, porquê não sei
porquê não sei  ainda

Ensinas-me a fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
pois falta sempre pouco p’ra chegar
Eu não meti o barco ao mar
p’ra ficar pelo caminho

Cá dentro inquietação, inquietação
é só inquietação, inquietação
porquê não sei, porquê não sei
porquê não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pr’acontecer
qualquer coisa que eu devia perceber
porquê não sei, porquê não sei
porquê não sei ainda

Cá dentro inquietação, inquietação
é só inquietação, inquietação
porquê não sei, mas sei
é que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pr’acontecer
qualquer coisa que eu devia perceber
porquê não sei, mas sei
é que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
qualquer coisa que eu devia resolver
porquê não sei, mas sei
que essa coisa é que é linda !

Treze anos, nove meses
em «Ser solidário», LP de 1982

Deixa-me encostar a cabecinha
que eu sou pobre como Job
Deixa-me chamar às vezes pela mãezinha
e aprender a ficar só

Começar a contar
branca a branca o nosso amor
sem fintar, sem temor
Filho a filho eu te amaria
mais o pão de cada dia

Às vezes melhor, outras vezes pior
fomos acertando o pensamento
E a vida lá fora
é que nos dava a cor
para pintar o amor
que estava dentro

Deixa-me enterrar tuas raízes
no meu corpo de água e sal
Deixa-me não ouvir bem o que tu dizes
quando não leste o jornal

Começar a contar
hora a hora tantas vezes
treze anos, nove meses
Gesto a gesto eu te amaria
mais o pão de cada dia

Às vezes melhor, outras vezes pior
fomos acertando o pensamento
E a vida lá fora
é que nos dava a cor
p’ra pintar o amor
que estava dentro

Deixa-me sentar numa cadeira
e descansar a teu lado
Deixa-me gritar cá à minha maneira
que eu grito sempre calado

Começar a contar
um a um os companheiros
os de agora, os primeiros
Mão a mão eu te amaria
mais o pão de cada dia

Às vezes melhor, outras vezes pior
fomos acertando o pensamento
E a vida lá fora
é que nos dava a cor
p’ra pintar o amor
que estava dentro

Ser solidário
em «Ser solidário», LP de 1982
Ser solidário assim para além da vida
por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
e improvavelmente ser feliz
De como aqui chegar não é mister
contar o que já sabe quem souber
O estrume em que germina a ilusão
fecundará por certo esta canção
Ser solidário sim, por sobre a morte
que depois dela só o tempo é forte
e a morte nunca o tempo a redime
mas sim o amor dos homens que se exprime
De como aqui chegar não vale a pena
já que a moral da história é tão pequena
Que nunca por vingança eu te daria
no ventre das canções sabedoria
Ser solidário assim para além da vida
por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
e improvavelmente ser feliz
FMI
em «FMI», Single de 1982

Vou-vos mostrar mais um pedaço da minha vida, um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito assim de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 79, e que talvez tenha um ou outro pormenor que já não é muito actual. Eu vou-vos dar o texto tal e qual como eu o escrevi nessa altura, sem ter modificado nada, por isso vos peço que não se deixem distrair por esses pormenores que possam já não ser muito actuais e que isso não contribua para desviar a vossa atenção do que me parece ser o essencial neste texto.
Chama-se FMI. Quer dizer: Fundo Monetário Internacional.
Não sei porque é que se riem, é uma organização democrática dos países todos, que se reúnem como as pessoas, em torno de uma mesa para discutir os seus assuntos, e no fim tomar as decisões que interessam a todos. É o internacionalismo monetário!

Cachucho não é coisa que me traga a mim
mais novidade do que lagostim
Nariz que reconhece o cheiro do pilim
distingue bem o Mortimore do Meirim
A produtividade, ora aí está!, quer dizer:
há tanto nesta terra que ainda está por fazer
Entrar por aí dentro, analisar, e então
Do meu attachécase sai a solução!

FMI
Não há graça que não faça o FMI

FMI
O bombástico de plástico pra si

FMI
Não há força que retorça o FMI

Discreto e ordenado, mas nem por isso fraco
eis a imagem on the rocks do cancro do tabaco
Enfio uma gravata em cada fato-macaco
e meto o pessoal todo no mesmo saco
A produtividade, ora aí está!, quer dizer:
Não ando aqui a brincar! Não há tempo a perder!
Batendo o pé na casa, espanador na mão
é só desinfectar em superprodução

FMI
Não há truque que não lucre ao FMI

FMI
O heróico paranóico harakiri

FMI
Panegírico pró-lírico daqui

Palavras, palavras, palavras e não só
palavras para si, palavras para dó
A contas com o nada, há que swingar o solidó
depois a criadagem lava o pé e limpó-pó
A produtividade, ora nem mais!,
Célulazinhas cinzentas
sempre atentas
E levas pela tromba, se não te pões a pau
um encontrão imediato do terceiro grau

FMI
Não há lenha que detenha o FMI

FMI
Não há ronha que envergonhe o FMI

FMI

Entretém-te filho, entretém-te
não desfolhes em vão este malmequer que bem-te
…quer mal-te
…quer vem-te
…quer, o-vo-mal-te
…quer-messe gigantes-ca vem-te bem
bem te vim
VIM na cozinha
VIM na casa-de-banho
VIM no Politeama
VIM no Águia D’Ouro
VIM em toda-a-parte
vem-te filho, vem-te comer ó-olho
vem-te comer à mão
olhós pombinhos pneumáticos como
te arrulham por esses cartazes fora…
olhá música no coração da Indira Ghandi
olhó Moshe Dayan que te traz debaixo d’olho
o respeitinho é muito lindo e nós
somos um povo de respeito,
n’é filho? Nós somos um povo de
respeitinho muito lindo
saímos à rua de cravo na mão
sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão
a horas certas
né, filho?
Consolida filho, consolida…
enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela,
que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde…
Consolida filho, consolida…
que o trabalhinho é muito lindo,
o teu trabalhinho é muito lindo,
é o mais lindo de todos
– cumó astro, né, filho? – o cabrão do astro
entra-te pela porta das traseiras,
tu tens um gozo do caraças,
vais dormir entretido – né ? –
Pois claro, ganhar forças, ganhar forças pra consolidar,
pra ver se a gente consegue num grande esforço nacional
estabilizar esta destabilização filha-da-puta, né filho?

Pois claro! E estás aí a olhar para mim,
estás aí a ver-me dar trinta e três voltinhas por minuto,
pagaste o teu bilhete, pagaste o teu imposto de transacção
e estás a pensar lá c’os teus zodíacos este tipo está-me a gozar, este gajo quem é que julga que é?, né, filho?
Pois não é verdade que tu és um herói desde que nasceste? a ti não é qualquer totobola que te enfió barrete, meu ganda safadote, hein? meu Fernão Mendes Pinto de merda! né, filho?
onde está o teu extremo-oriente, filho?
aniki-bé-bé
aniki-bó-bó,
tu és Sepúlveda, tu és Adamastor
pois claro!
Tu sozinho consegues enrabar as Nações Unidas
com passaporte de coelho,
né, filho?
mal eles sabem, pois é?
tu sabes o que é gozar a vida!
Entretém-te filho, entretém-te

Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho,
trabalhinho,
porreirinho da silva
e salve-se quem puder que a vida é curta
e os santos não ajudam quem anda práqui a encher pneus
com este paleio de sanzala
em ritmo de pop-chula, né filho?

a-one
a- two
a one-two-three

FMI
FMI

Càmóne, iú, san óve abiche !
Càmóne, beibi, a ver se me comes, Càmóne, Luiz Vaz,
amanda-lhe com os decassílabos que eles já vão saber o que é
meterem-se com uma nação de poetas!
E zás !
Enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares
zás ! enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro de Cunhal
zás ! enfio-te a Natália Correia no Sá Carneiro
zás ! enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros
zás ! enfio-te o Pedro Homem de Melo no Parque Mayer
e acabamos todos numa sardinhada à integralismo Lusitano a estender o braço,
meio Rolão Preto, meio Steve MacQueen,
OK BOSS, tudo OK, estamos numa porreira meu,
um trip fenomenal, proibido voltar atrás,
vivá liberdade, né filho?
Pois ! irreversível, pois claro, irreversívelzinho,
pluralismo a dar c’um pau, nada será como antes,
agora todos se chateiam doutra maneira, né filho?

Ora que porra ! Deixa lá correr uma fila ao menos !
Malta pá, é assim mesmo, cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, né?

Preocupações, crises políticas, pá! a culpa
é dos partidos pá! esta merda dos partidos é que divide a malta, pá!

Pois, pá! é só paleio, pá! o pessoal não quer é trabalhar, pá! Razão tem o Jaime Neves pá!
— olha, deixaste cair as chaves do carro! – pois pá — que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves? — é pá, deixa-te disso, não desestabilizes, pá! — Eh, faz favor, é mais uma bica e um pastel de nata –  uma porra pá ! um autêntico desastre, o 25 de Abril, esta confusão, pá, a malta estava sossegadinha, a bica a quin’chões, a gasosa a sete e croa… tá bem, essa merda da pide, pá, tarrafais e o carago, mas no fim de contas quem é que não colaborava? hem? quantos bufos havia nesta merda deste país? heim? quem é que não se calava? quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo o que se chama arriscar? hein? meia-dúzia de líricos, pá! meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir pró estrangeiro, pá!

Isto é tudo a mesma carneirada!
ó sô guarda venha cá – Á !
venha ver como isto é — É!
o barulho que vai aqui— I!
o neto a bater n’avó — Ó!
deu-lhe um pontapé no cú — né, filho?

Tu vais conversando, conversando, que ao menos agora pode-se falar!…ou já não se pode?
ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar? hein?
estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril eram só paleio, a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho?
e tu fizeste cumó avestruz, enfiaste a cabeça n’areia, não é nada comigo… não é nada comigo…, né, e os da frente que se lixem, e é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho? precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas pra cima de alguém e atiras as culpas prós da frente, prós do 25 de Abril, prós do 28 de Setembro, prós do 11 de Março, prós do 25 de Novembro, prós do…
…que dia é hoje ? hein ?

FMI
FMI

Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, né filho?
TODOS temos culpas no cartório, foi isso que te ensinaram, não é verdade?
ESTA MERDA NÃO ANDA, PORQUE A MALTA – pá – A MALTA NÃO QUER QUE ESTA MERDA ANDE! tenho dito!
A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer-se dizer: há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muito bons,
NO FUNDO, né?
Somos todos uma nação de pecadores e vendidos, né?
Somos todos
ou anti-comunistas ou anti-fascistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos pràqui, ismos pràcolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole, parole, parole, e o Zé é que se lixa, cá o Pintas é sempre mexilhão,
eu quero lá saber desse paleio, vou mas é ó futebol, pronto,
bibó-Puârto, vivó-Bâfica, Lou-ro-sa, Lou-ro-sa, Mar-ra-zes, Mar-ra-zes, fóró árbitro, gatuno, qual gatuno qual caralho, razão tinha o Tonico Bastos para se entreter, né filho?

Entretém-te filho, cas tuas viúvas e as tuas órfãs,
que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores,
entretém-te que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais,
entretém-te, filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho,
entretém-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar,
entretém-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes,
entretém-te, filho,

e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada, milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos, com computadores, redes de polícia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá!, podes estar descansado que o Teng-Hsiao-Ping está a tratar da tua vida com o Jimmy Carter, o Brejnev está a tratar de ti com o João Paulo II, tudo corre bem, a ver quem se vai abotoar com os vint’cinc’chões de riqueza que tu vais produzir amanhã nas tuas oito-horas,
a ver quem vai ser capaz de te convencer de que a culpa é tua e só tua, se o teu salário perde valor todos os dias, vão-te convencer de que a culpa é só tua, se o teu poder de compra é cumó rio de São Pedro de Muel que se some nas areias em plena praia, ali, a dez metros do mar em maré cheia, e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer porra, finalmente o rio desaguou
vão-te convencer de que a culpa é tua, e tu sem culpa nenhuma, tás tu a ver?
Que tens tu a ver com isso, né filho?
Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim! Não é?
Tu fazes cumós outros… fazes o que tens a fazer…
– votas à esquerda moderada nas sindicais
– votas no centro moderado nas deputais
– e votas na direita moderada nas presidenciais
que mais querem eles?
que lhe ofereças a europa no natal? era o que faltava!
É assim mesmo, julgam que te levam de Mercedes? toma!
Pra safado, safado-e-meio, né filho?
Nem prá frente nem pra trás, e eles que tratem do resto,
os gatunos, que são pagos pra isso, né?

Claro! que se lixem as alternativas!
Pra trabalho já me chega.

Entretém-te, meu anjinho, entretém-te,
que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti,
se hás de construir barcos prá Polónia ou cabeças de alfinete prá Suécia,
se hás-de plantar tomate pró Canadá ou eucaliptos pró Japão,
descansa que eles tratam disso,
se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos
ou se hás de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo,
descansa, não penses em mais nada, que até neste país de pelintras se acha normal haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar,
descontrai, beibi, CÀMÓNE, descontrai,
afinfa-lhe o Bruce-Li, afinfa-lhe a macrobiótica, o biorritmo, o horoscópio, dois ou três ovniologistas, um gigante da Ilha-de-Páscoa e uma Grace-de-Mónaco de vez em quando para dar as boas-festas às criancinhas,
piramiza, filho, piramiza, antes que os chatos fujam todos pró Egipto, que assim é que tu te fazes um homenzinho, e até já pagas multa se não fores ao recenseamento

Pois, pá ! isto é um país de analfabetos, pá!
Dá-lhe no Travolta
dá-lhe no discousáunde
dá-lhe no pop-chula
pop-chula
pop-chula
yeah! yeah !
JOTAPIMENTA FORÉVER!
quanto menos souberes a quantas andas, melhor para ti…
Não te chega pró bife? – antes no talho do que na farmácia!
não te chega prá farmácia? – antes na farmácia do que no tribunal!
não te chega pró tribunal? – antes a multa do que a morte!
não te chega pró cangalheiro? – antes prá cova do que pra não-sei-quem que há-de vir, cabrões de vindouros, heim? sempre a merda do futuro, e eu que me quilhe!

Pois pá ! sempre a merda do futuro, a merda do futuro, E EU ? HEIM? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá ! e eu? José Mário Branco, 37 anos
Isto é que é uma porra!
anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos,
a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal-viver, é?
– O menino é mal criado
– o menino é pequeno-burguês
– o menino pertence a uma classe sem futuro histórico
Eu sou parvo, ou quê?
quero ser feliz, porra!
quero ser feliz agora!
que se foda o futuro!
que se foda o progresso!
mais vale só do que mal-acompanhado!

Vá! mandem-me lavar as mãos antes de ir prá mesa, FILHOS DA PUTA DE PROGRESSISTAS DO CARALHO DA REVOLUÇÃO QUE VOS FODA A TODOS !
Deixem-me em paz: Porra, deixem-me em paz e sossego!
Não me emprenhem mais pelos ouvidos, caralho! Não há paciência!
Não há paciência, deixem-me em paz, caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e polícias e generais pró raio que vos parta! Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho, deixem-me só para sempre, tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto!, já chega!
Sossego, porra! silêncio, porra!
deixem-me só,
deixem-me só,
deixem-me só,
deixem-me morrer descansado,
eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado,
eu quero lá saber do Benfica e do Bispo do Porto,
eu quero se lixe o 13-de-Maio e o 5-de-Outubro
e o Melo Antunes e a Rainha de Inglaterra e o Santiago Carrillo e a Vera Lagoa!
Deixem-me só! Porra! Rua! Larguem-me! Desòpila o fígado! Arreda! Tarrenego-satanás! FILHOS DA PUTA!
Eu quero morrer sozinho! Ouviram? Eu quero morrer
Eu quero que se foda o FMI, eu quero lá saber do FMI, eu quero que o FMI se foda, eu quero lá saber que o FMI me foda a mim, eu vou mas-é votar no Pinheiro de Azevedo se ele tornar a ir pró hospital! pronto!
Bardamerda o FMI! O FMI é só pretexto vosso, seus cabrões! o FMI não existe! o FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma! o FMI é uma finta vossa pra virem pràqui com esse paleio! Rua! Desandem daqui pra fora!
a culpa é vossa!
a culpa é vossa!
a culpa é vossa!
a culpa é vossa!
a culpa é vossa!
a culpa é vossa!
Ó MÃE
Ó MÃE
Ó MÃE
Ó MÃÃÃÃÃE

Mãe! eu quero ficar sozinho!
Mãe! eu não quero pensar mais!
Mãe! eu quero morrer, mãe!
Eu quero des-nascer, ir-me embora sem sequer ter que me ir embora.
Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e me encontrar fugindo.
De quê, mãe? Diz, são coisas que se me perguntem?
Não pode haver razão para tanto sofrimento.
E se inventássemos o mar de volta?
e se inventássemos partir pra regressar?
Partir, e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste, partida pra ganhar, partida de acordar, abrir os olhos,
numa ânsia colectiva de tudo fecundar,
terra, mar, mãe,
lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto,
lembrar, nota-a-nota, o canto das sereias,
lembrar o depois-do-adeus e o frágil ingénuo cravo da rua do Arsenal,
lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição…
Partir aqui com a ciência toda do passado, partir AQUI
pra ficar

Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila,
o azul dos operários da Lisnave a desfilar,
gritando ódio apenas ao vazio
exército de amor e capacetes

Assim mesmo, na Praça de Londres, o soldado lhes falou:
olá camaradas, somos trabalhadores e eles não conseguiram fazer-nos esquecer; aqui está a minha arma para vos servir

Assim mesmo, por trás das colinas onde o verde está à espera, se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de Lavacolhos

Assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores:
De quem é o carvalhal?
É NOSSO!

Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei,
neste cais eu encontrei
a margem do outro lado, grândola vila morena

Diz lá: valeu a pena a travessia?
Valeu, pois.

Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe,
no fundo deste mar encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos,
o meu canto e a palavra.
O meu sonho é a luz que vem do fim do mundo,
dos vossos antepassados que ainda não nasceram,
a minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez.

sou português
pequeno-burguês de origem, filho de professores primários
artista de variedades,
compositor popular, aprendiz de feiticeiro
faltam-me dentes.
Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto,
muito mais vivo que morto
Contai com isto de mim
pra cantar
e para o resto.

Cá vai Caneças
em «A noite», LP de 1985

Abram alas, minha gente
nós queremos ver a rua à nossa frente
Cá vai Caneças
cheia de pressa
para vos dar o passado e o presente

Não há tempo para sofrer
o nosso tempo é para rir e para beber
Cá vai Caneças
de pé de Leças
porque não tem tempo a perder

Rinhenheu, diz o azul,
rinhaunhau, o amarelo
tanta falta de cabelo
já não dá para os rissóis
estamos fartos de ir à pesca
sem minhocas para os anzóis
Esta malta já não vai em futebóis

Abram alas, minha gente
nós queremos ver a lua à nossa frente
Cá vai Caneças
cheia de pressa
para vos dar o passado e o presente

Não há tempo para sofrer
o nosso tempo é para rir e para beber
Cá vai Caneças
de pé de Leças
porque não tem tempo a perder

Ai, levanta na sua mão
ó menina
de saia curta
a fanfarra à la minuta
toma conta da cidade
nem que sejam mais cem anos pra fazer a sociedade
esta malta já só quer a liberdade

Abram alas, minha gente
nós queremos ver a rua à nossa frente
Cá vai Caneças
cheia de pressa
para vos dar o passado e o presente

Não há tempo para sofrer
o nosso tempo é para rir e para beber
Cá vai Caneças
de pé de Leças
porque não tem tempo a perder

E vai o santo a dar à perna
pelo meio do arraial
Isto assim está muito mal
para o pé esquerdo e o direito
onde há tanto pessoal
tu queres levar a festa a peito
esta mal já não tem nenhum defeito

Abram alas, minha gente
nós queremos ver é a rua à nossa frente
Cá vai Caneças
cheia de pressa
para vos dar o passado e o presente

Não há tempo para sofrer
o nosso tempo é para rir e para beber
Cá vai Caneças
de pé de Leças
porque não tem tempo a perder

Tiro-no-liro
em «A Noite», LP de 1985

Na zoologia do fala-só
Há muitos animais de tiro
Há o tiro-liro e não só
Também o tiro-liro-ló

Seja tiro-liro ou tiro-ló
O tiro-liro leva tiro
Que é o mesmo que três liros e um ló
Feridos por um tiro só

Quem dá o tiro no liro
Vai p’ró chilindró
Quem dá o tiro no ló
Anda de pó-pó

Quem dá o tiro no liro
Vai p’ró chilindró
Quem dá o tiro no ló
Anda de pó-pó

Lá em cima está o tiro-liro-liro
Cá em baixo o tiro-liro-ló
Lá em cima está o tiro-liro-liro
Cá em baixo o tiro-liro-ló

Mas o liro que eu prefiro é o ló
Que ao liro-liro tira o tiro
Pois enquanto o ló transpira no pó
O liro tira o pão do ló

Há-de vir o dia em que o liro-ló
Será igual ao liro-liro
Com a concertina e o sol-e-dó
Unidos por um tiro só

Quem dá o tiro no liro
Vai p’ró chilindró
Quem dá o tiro no ló
Anda de pó-pó

Quem dá o tiro no liro
Vai p’ró chilindró
Quem dá o tiro no ló
Anda de pó-pó

Lá em cima está o tiro-liro-liro
Cá em baixo o tiro-liro-ló
Lá em cima está o tiro-liro-liro
Cá em baixo o tiro-liro-ló

Más há-de vir o dia em que o liro-ló
será igual ao liro-liro
Com a concertina e o sol-e-dó
unidos por um tiro só

Quem dá o tiro no liro
Vai p’ró chilindró
Quem dá o tiro no ló
Anda de pó-pó

Quem dá o tiro no liro
Vai p’ró chilindró
Quem dá o tiro no ló
Anda de pó-pó

Arrocachula
em «A Noite», LP de 1985

As armas e os barões assinalados
Que da ocidental praia lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana
E entre gente remota edificaram
Novo reino que tanto sublimaram

As armas e os barões assinalados
Que da ocidental praia lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana
E entre gente remota edificaram
Novo reino que tanto sublimaram

Problema é que agora já conheço
todas as regras
do novo jogo

E Verdade verdadinha
já não é fácil
ser-se músico

São as mesmíssimas palavras
só os acentos
é que mudaram

O agudo é esdrúxulo
e o esdrúxulo
agora é grave

Ai, as palavras estão em crise
E não é só pelo que elas querem dizer
E não é só pelo que elas querem dizer

Ai, as palavras têm raízes
E começam no som que eles estão a perder
E começam no som que eles estão a perder

La larai laraio
La larai laraio
La larai laraio

Arrocachula, arrocachula, arrocachula na espiral medular
Arrocachula, arrocachula, arrocachula na espiral medular
Arrocachula, arrocachula, arrocachula na espiral medular
Arrocachula, arrocachula, arrocachula na espiral medular
Arrocachula, arrocachula, arrocachula na espiral medular
Arrocachula, arrocachula, arrocachula na espiral medular
Arrocachula, arrocachula, arrocachula na espiral medular
Arrocachula, arrocachula, arrocachula na espiral medular
Arrocachula, arrocachula, arrocachula na espiral medular
Arrocachula, arrocachula, arrocachula na espiral medular
Arrocachula, arrocachula, arrocachula na espiral medular
Arrocachula, arrocachula, arrocachula na espiral medular

Problema é que agora já conheço
todas as regras
do novo jogo

E Verdade verdadinha
já não é fácil
ser-se músico

São as mesmíssimas palavras
só os acentos
é que mudaram

O agudo é esdrúxulo
e o esdrúxulo
agora é grave

Não faz sentido que as palavras
Percam música na música que aparecer
Percam música na música que aparecer

Ai, o sentido que é perdido
É o ouvido que as palavras estão a perder
É o ouvido que as palavras estão a perder

La larai laraio
La larai laraio
La larai laraio

Não faz sentido que as palavras
Percam música na música que aparecer
Percam música na música que aparecer

Ai, o sentido que é perdido
É o ouvido que as palavras estão a perder
É o ouvido que as palavras estão a perder

Elogio da corporação
em «A Noite», LP de 1985

Cara de sémola
Coisinho da Fonseca
Filho de epístola
Fedelho de cácá-rá-cá

No pergamóide não
há pai para ti algures
Cujo da balda
Manique de trazer por cá(sa)

Como é que eu me hei-de livrar de ti?

Ai como eu gosto da corporação
Ai dá-me choques a corporação

Fístula anímica
Chafalho do fanico
Bisga recôndita
Olhar de lado para a monnaie

Soco no estômago
pombinha branca a juros
Parte de nada
com dois ossinhos no boné

Como é que eu me hei-de livrar de ti?

A noite
em «A Noite», LP de 1985
Notas:
– Todas as palavras em a) são da autoria de Antero de Quental;
– Os versos em c) correspondem ao poema de José Mário Branco para a sua Cantiga do Leite 

a)
Com que passo tremente se caminha
em busca dos destinos encobertos !
Como se estão volvendo olhos incertos !
Como esta geração marcha sozinha !

Fechado, em volta, o céu ! o mar, escuro !
A noite, longa ! o dia, duvidosa !
Vai o giro dos céus vagaroso …
Vem longe ainda a praia do futuro …

b)
Em tudo que já fomos está o que seremos
No fundo desta noite tocam-se os extremos
E se soubermos ver nos sonhos o processo
Os passos para trás não são um retrocesso

A noite é um sinal de tudo quanto somos
dos medos, dos mistérios, das fadas e dos gnomos
Da ignorância pura e da ciência irmã
em que, sendo passado, já somos amanhã

A noite é o espaço vago, o tempo sem história
em que as perguntas nascem dentro da memória
Em tudo que já fomos está o que seremos
mas cabe perguntar: foi isto que quisemos ?

Em tudo que já fomos está o que deixamos
no ventre das marés, nos portos que tocamos
O rumo desvendado, o preço da bagagem
É tudo quanto resta para seguir viagem

A noite é parideira da contradição
que existe em cada sim que nos parece não
Olhando para nós, os grandes dissidentes
no meio da luta entre lemes e correntes

Será esta viagem feita pelo vento
Será feita por nós, amor e pensamento
O sonho é sempre sonho se nos enganamos
Mas cabe perguntar: como é que aqui chegamos ?

a)
Vem longe ainda a praia do futuro…

É a luta sem glória ! é ser vencido
por uma oculta, súbita fraqueza!
Um desalento, uma íntima tristeza
que à morte leva…sem se ter vivido !

A estrada da vida anda alastrada
de folhas secas e mirradas flores…
Eu não vejo que os céus sejam maiores
mas a alma…essa é que eu vejo mais minguada !

b)
Em tudo que já fomos estão os nossos mortos
e os vivos que ficaram entram nos seus corpos
Na noite do amor, na noite do sinal
Naufrágio de fantasmas na pia baptismal

A noite é o impreciso e escuro purgatório
que alinha as nossas almas no seu dormitório
A culpa dos heróis é serem sempre poucos
Acaso somos mais, ou tão-somente loucos ?

Temos que descasar a culpa e o prazer
naquilo que fizemos ou deixamos de fazer
para construir os corações cativos
mas cabe perguntar:

c)
Mama, meu menino, o leite é como um rio

b)
Acaso estamos vivos?

a)
Eu não vejo que os céus sejam maiores

Irmãos, irmãos ! Amemo-nos ! É a hora…
É de noite que os tristes se procuram
e paz e união entre si juram…
Irmãos, irmãos ! Amemo-nos ! É a hora…

Vós que ledes na noite…vós, profetas…
que sois os loucos… porque andais na frente…
que sabeis o segredo da fremente
Palavra que dá fé – ó vós, poetas !

b)
Em tudo que já fomos há um sonho antigo
conversa universal de cada um consigo
São sombras e brinquedos, tudo misturado
e o vago sentimento de nascer culpado

c)
Mama, meu menino, o leite é como um rio

b)
Será um sonho absurdo, este olhar para dentro
E o nosso destino, só, servir de exemplo
Andamos a fugir à frente desta vida
mas cabe perguntar: existe uma saída ?

a)
Irmãos, irmãos ! Amemo-nos agora !
É de noite que os tristes se procuram !

Sim, que é preciso caminhar avante !
Andar, passar por cima dos soluços
como quem numa mina vai de bruços
Olhar apenas uma luz distante !

Irmãos, irmãos ! Amemo-nos agora !
É de noite que os tristes se procuram !

Heis-de então ver, ao descerrar do escuro
bem como o cumprimento de um agouro
abrir-se como grandes portes de ouro
as imensas auroras do futuro !

c)
Mama, meu menino, o leite é como um rio
que nunca pára de correr
O leite branco é o remédio santo
com que tu vais crescer

Entre as duas margens quentes e fecundas
mama, meu menino, sem parar
Rio sem fundo, âncora do mundo
que corre devagar

Mama o leite, meu passarinho
mata a sede sem temor
Este rio é o teu caminho
o cordão do meu amor

Mama, meu menino, mais um poucochinho
que eu páro o tempo só para ti
Seiva da vida com que fui enchida
quando te concebi

Um pequeno esforço, mete-te ao caminho, duas colinas mais além
Asas de estrume
para te dar o lume
Oh meu supremo bem

Mama o leite, meu passarinho
mata a sede sem temor
Este rio é o teu caminho
Oh cordão do meu amor

a)
Irmãos, irmãos ! Amemo-nos agora !
É de noite que os tristes se procuram

Dairinhas (Carta a Daniel Filipe)
em «Correspondências», LP de 1990

Era Dairinhas um botão de flor
abrindo à vida e ao amor também
e conheceu o mais profundo amor
que alguma vez já conheceu alguém
Quanta alegria havia
nesse riso claro
nesses beijos mil

Tem cuidado, Maria d’Aires, tem
Olha bem por onde vais
que a paixão sozinha nunca vem
como tudo o que é demais

Campos e praias, Tejo e Santo André
primeiro amor igual a tantos mais
Assim amou Dairinhas o seu Zé
um pai de filhos igual aos seus pais
E tudo foi
azul como se fosse
a colecção de capa azul

Tem cuidado, Maria d’Aires, tem
Olha bem por onde vais
que a paixão sozinha nunca vem
como tudo o que é demais

O grande cerco começou então
telenovela da vida real
entre a chantagem e a repressão
contra o amor, o desamor geral
Pobre Dairinhas
vais ser esmagada
pela máquina infernal

Tem cuidado, Maria d’Aires, tem
Olha bem por onde vais
que a paixão sozinha nunca vem
como tudo o que é demais

Sesimbra viu, Lisboa pressentiu
a história simples daquela paixão
e como sempre da sombra surgiu
um mar de invejas e de frustração
E ali se armou
a teia dos olhares
e dos venenos casuais

Tem cuidado, Maria d’Aires, tem
Olha bem por onde vais
que a paixão sozinha nunca vem
como tudo o que é demais

À lei dos homens como à lei de deus
homem casado não se pode amar
e a violência dos fariseus
levou Dairinhas a desesperar
Não sei se há
alguma estrela longe
onde o amor é natural

Tem cuidado, Maria d’Aires, tem
Olha bem por onde vais
que a paixão sozinha nunca vem
como tudo o que é demais

Que morra eu se há-de morrer o amor
gritou Dairinhas, e ali se matou
Cantai vitória sobre a minha dor
que eu sou a vida que vos sobejou

Emigrantes da quarta dimensão (Carta a J.C)
em «Correspondências», LP de 1990

Dá-me uma ajuda, ó médico das almas
Para escolher em que combate combater
Quem condeno eu à vida
Quem condeno eu à morte
Que me podes tu dizer
Encostado à árvore do tempo
Folhas mortas, folhas vivas, estações
Nada disto faz sentido
E o sentido do sentido
Não paga as refeições
Este torpor só tem uma solução
Sejamos deuses, é meter as mãos à obra
E no fazendo acontecendo
Deixar ir o coração
Que é o que nos sobra

Ao fazer-se, o mundo nasce de si próprio
Ser avô é uma alegria atravessada
Dá p’ra rir e p’ra chorar
Não temos nada com isso
E nada não é nada
Disseste um dia que tudo vale a pena
Tornar as almas mais pequenas é que não
Vamos sobre duas patas
Juntar as partes da antena
Espalhadas pelo chão
Fecha a porta que vem frio lá de fora
Diz o coxo ao despernado, e eu aqui
Fui à procura de mim
Encontrei-me mesmo agora
E ainda não fugi

O tempo corre entre pívias e manhas
E tudo fica cada vez mais como está
Mas ao correr desta pena
Não fico à espera que venhas
Eu já sou o que virá
Eu já sou o que virá
Eu já sou o que virá

Zeca (Carta a José Afonso)
em «Correspondências», LP de 1990

Vieste de menino de oiro pela mão
Acordar a madrugada
E fez mais às vezes uma só canção
Do que muita panfletada
Grandes janelas soubeste abrir
Por onde o ar correu sem te pedir
Que não se cansem de nascer
As fontes onde vais beber

Nunca mais te hás-de calar
Ó Zeca, para nós
Canta sempre sem parar
Que é seiva e flor
A tua voz

Vestiste a capa de caloiro coimbrão
Para ultrapassar o fado
E, em cada natal, teu fruto temporão
Nunca foi ultrapassado
Na distracção jogas à defesa
Com o humor disfarças a tristeza
Cantas a esperança e o amor
Que o povo te ensinou, de cor

Nem tudo o que reluz é oiro, pois então
E bem gostaria o facho
De te ver calado e manso pela mão
Com medalhas no penacho
Com a tua ronha felina e sã
Vais-lhe atirando as flechas de amanhã
O olho pisco a acender
E a garganta a acontecer

Shalom Palestina (Carta a Hannah Arendt)
em «Correspondências», LP de 1990

Viva a Terra Santa
Viva a Terra Prometida
Chão sagrado
Chão amado
Chão perdido e depois reconquistado
Foi o exôdo final que se acabou
Foi a solução final, que afinal já se encontrou
e está aqui para o que der e vier
Eis a nova diáspora de quem já pagou
Já pagou e tornou a pagar todo o mal
que ficou por fazer

Shalom Palestina
verga a tua espinha
agora é a nossa vez
agora é a tua vez
Shalom Palestina

Viva a Terra Santa
Viva a Terra Prometida
Chão amado
chão pequeno
chão estreito, mas que vai sendo alargado
Cada povo tem o seu tempo e o seu espaço marcado
o seu espaço vital, o seu anschluss fatal
e é à força, pela força que ele há-de passar
Povo eleito há só um, não estava aqui nenhum
e há-de ficar, quem foi o brincalhão
que chegou a pensar em Madagáscar ?

Shalom Palestina
verga a tua espinha
Agora é a nossa vez
Desculpa, mas agora é a tua vez
Shalom, Palestina

Viva a Terra Santa
Viva a Terra prometida

Prometida
se nos foi prometida
é porque era devida
Está no livro, está tudo no livro, nem sequer sabes ler
Mas vais ter que aprender, mas vais ter que saber
porque a gente também aprendeu a esquecer
desde Gaza a Beirute, do Jordão ao Sinai
Já está tudo esquecido, já está tudo aprendido,
e ficamos aqui, e tu morres aqui, e daqui ninguém sai

Shalom Palestina
verga a tua espinha
Agora é a nossa vez
agora é a tua vez
Shalom Palestina
Shalom Palestina
Shalom Palestina

Sentido único (Carta a Chico Buarque)
em «Correspondências», LP de 1990

A palavra solta voou sobre as ondas
e a minha canção era a tua canção
Andamos às voltas nas mesmas esperanças
e vivemos juntos a mesma opressão

Mandaste recados e eu respondi
Bateste-me à porta, abri-te o portão
Entraste cá dentro com tudo o que tinhas
Disseste-me olá de cravo na mão

Eu fui ter contigo para te ajudar
Deixaste-me à porta sem explicação
A rua que liga a minha à tua
só tem um sentido de circulação

A rua que liga a minha à tua
perdeu um sentido de circulação

Tenho saudade do dia que há-de vir
em que virás a esta casa que é a tua
para trocarmos o que temos para nos dar

Tenho saudade do dia em que hás-de vir
para combinar eu ir cantar à tua rua
que bom era eu ir cantar à tua rua !

Sentido único sentido
Sentido único sentido

Tenho saudade das canções que te mandei
Receio bem que não as tenhas nem ouvido
Nenhum sinal da tua parte o fez saber

Tantas canções que tu me deste, e eu amei
mas se a tua rua tem um sentido único
a nossa rua já não tem nenhum sentido

Sentido único sentido
Sentido único sentido

Quando eu for grande (Carta a meus netos)
em «Correspondências», LP de 1990
Nota: poema em co-autoria com Manuela de Freitas

Quando eu for grande quero ser
Um bichinho pequenino
P’ra me poder aquecer
Na mão de qualquer menino
Quando eu for grande quero ser
Mais pequeno que uma noz
P’ra tudo o que eu sou caber
Na mão de qualquer de vós

Quando eu for grande quero ser
Uma laje de granito
Tudo em mim se pode erguer
Quando me pisam não grito
Quando eu for grande quero ser
Uma pedra do asfalto
O que lá estou a fazer
Só se nota quando falto

Quando eu for grande quero ser
Ponte de uma a outra margem
Para unir sem escolher
E servir só de passagem
Quando eu for grande quero ser
Como o rio dessa ponte
Nunca parar de correr
Sem nunca esquecer a fonte

Quando eu for grande quero ter
O tamanho que não tenho
P’ra nunca deixar de ser
Do meu exacto tamanho

Cada dia são cem (Carta ao remetente)
em «Correspondências», LP de 1990

Cada vez que o sol se põe
eu fico sozinho a pensar
que vou eu fazer do novo dia que aí vem ?
Cada dia são cem

Cada vez que a noite chega
com a escova dos dentes a rir
eu olho para o espelho a ver se vejo um imbecil
Cada dia são mil

Vivo na era das descobertas
e o tempo a passar sempre a horas certas
Só o tempo passou por aqui
só mesmo o tempo é que passou por aqui

Cada vez que a vida encolhe
eu vou esticando os lençóis
e o livro das contas quantas folhas é que tem ?
Cada dia são cem

Cada vez que o sono passa
alguém já passou por aqui
deixando um sinal do seu protesto viril
Cada dia são mil

Já lá vem o novo dia
Já lá vem o sol
Já cá canta a cotovia
Foi-se o rouxinol

É o tempo que me leva
e o tempo não é boa rês
Com sol ou com chuva ele molha sempre alguém
Cada dia são cem

É o tempo que me espera
à porta de cada paixão
fazendo a inspecção da evolução do meu perfil
Cada dia são mil

Vivo na era das descobertas
e o tempo a passar sempre a horas certas
Só o tempo passou por aqui
só mesmo o tempo é que passou por aqui

Devagar que tenho pressa
cada vez que a noite chegar
Porque é que dormir raramente sabe bem ?
Cada dia são cem

Devagar que tenho pressa
Depressa que tenho vagar
De noite é que travo a minha guerra civil
Cada dia são mil

Já lá vem o novo dia
Já lá vem o sol
Já cá canta a cotovia
Foi-se o rouxinol

Cada vez que o sol se põe
eu fico sozinho a pensar
que vou eu fazer do novo dia que aí vem ?
Cada dia são cem

Nem deus nem senhor
em «Resistir é vencer», de 2004

A luz é tão cega
Que nunca se entrega
Só se deixa ver
Numa razão de ser
Sem sequer entender
Os olhos que a vão receber

E o rasto que fica
É uma coisa antiga
Que a gente tem p’ra dar
E só pode encontrar
Quando morrer a procurar

Salvo pelo amor
Só se pode ser salvo pelo amor
Do sentido perdido ganhador

Não tem Deus nem Senhor
Esta dor
Anda à solta por aí
Que eu bem a vi
Ai, se eu pudesse parar
Se eu vos pudesse contar

Salvo pelo amor
Não existe derrota para a dor
Com o seu capital triturador

Não tem Deus nem Senhor
É simplesmente dor
Que é o que faz questão de ser
Sem entender
Que a vida toda surgiu
De um Sol que nunca se viu
Nem sei se existe

Se do império
em «Resistir é vencer», de 2004

Se do Império os mortos vais contar
São tantas as parcelas p’ra somar
Qualquer pequena história ao virar da esquina
Guatemala, Indonésia, Argentina
Djenine e Hiroshima

Para bem contar, não contes pelos dedos
Nenhuma conta conta a dor
Que essas contas contarão
Aí nessa rua a seguir à tua
Sangue, lágrimas – e medos

Tem cuidado
Se do Império os mortos vais contar
Melhor será saber recomeçar
Que os mortos do Império vão voltar

Se do Império os mortos vais contar
Terás milhões de vidas p’ra somar
A grande história escrita ao virar da esquina
Vietname, Curdistão, Filipinas
Angola e Palestina

Para bem contar, preciso é ter coragem
E deitar contas ao horror
Que essas contas contarão
E a conta continua a seguir à tua
Fome, cárcere – pilhagem

Sê paciente
Se do Império os mortos vais contar
Melhor será saber recomeçar
Que os mortos do Império vão voltar

São mortos distantes
Em tudo semelhantes
A esses outros mortos que estão vivos
Em tímidas vidas
Almas cativas
Mas prometidas

Os vivos
São o regresso dos mortos
Que os impérios dão
À revolução

Poder
em «Resistir é vencer», de 2004

Um herói
À mesura
Da sua estatura
Vai sempre à procura
Ond’ inda ninguém foi

Um herói
Não descura
Um ou outro dói-dói
Uma dura aventura
Não mata mas mói

Caso venha a ser preciso
Arriscar qualquer coisinha
Na operação
Um herói no seu juízo
Leva sempre uma pilinha
Em cada mão

Com a cobertura da instituição
Mais aquilo do Deus-Pátria-Canhão
Um herói nunca se corta
Meio olho-vivo, meio mão-morta
A porta
Não importa

Poder
Quem o tem, tem ascendente
Poder
Quem o tem, faz-se valente
Bem usado
Mal usado
O poder é prepotente
Assim
Diz o povo amiúde
Assim
Herói era toda a gente
Mais val’ rico e com saúde
Do que pobre e doente

Um herói
Façanhudo
É de tudo capaz
Faz ao peixe miúdo
O que mais ninguém faz

Um herói
Catrapás
Salta dos quadradinhos
Puxa os cordelinhos
E eles vêm atrás
Com algum equipamento
Assegura a quadratura
Da operação
E o simbólico instrumento
É uma armadura dura
Em cada mão

Um herói é o garante, o bastão
Dessa coisa do Deus-Pátria-Canhão
Nunca teme, nunca se corta
Come peixinhos da horta
Mulher morta
Não aborta

Poder
Quem o tem, tem ascendente
Poder
Quem o tem, faz-se valente
Bem usado
Mal usado
O poder é prepotente
Assim
Diz o povo amiúde
Assim
Herói era toda a gente
Mais val’ rico e com saúde
Do que pobre e doente

As contas de deus
em «Resistir é vencer», de 2004

Folhas de calendário são
Almas em busca de água e pão
Quanto mais o tempo passa
Menos a desgraça
Tem valor

Que buscas tu, ó meu irmão
Industrial da opressão
Cada letra do teu nome
É um ano de fome
E de dor

Contas e contas se fazem num dia
Ai quantas contas se fazem num dia
Corpos caídos
Vidas aos bocados
Tapados dos lados
Por cima e por baixo
E eu, ou vou ou racho
O que eu não faria
Com as contas de um só dia
Se eu fosse Deus
Se Deus não fosse eu

Alguém que acorde esse país
Que pegue fogo aos alibis
De quem pensa que o dinheiro
Se gasta primeiro
Que o amor

Como se pode ser feliz
Sabendo a dor que não se diz
Cada minuto da hora
Alguém vai embora
Ou pior

Contas e contas se fazem num dia…

Como se Deus não fosses tu.

Canção dos despedidos
em «Resistir é vencer», de 2004

Somos explorados no trabalho, e não só
Também somos o lixo
Lixo na tê-vê, quem lá está e quem vê
Lixo no jornal, voz do seu capital
Estamos entregues aos bichos
E o lixo produz mais lixo

E o tempo a passar
E eu a cantar
Eu também faço parte do lixo

Há quem viva bem do nosso mal-viver
Nós somos lixo
Somos só lixo
Já não há gente, há só lixo
Dispensável, descartável, reciclável
E agora parem um minuto p’ra pensar

Há que humanizar a humanidade, e não só
Há que varrer o lixo
O do Capital, que é o lixo global
Lixo do Estado, que é o seu braço armado
O mundo é de quem manda
E o resto é propaganda

Tudo é publicidade
Mas a liberdade
É escolher entre ser ou estar

Tens a boca cheia de palavras lindas
P’ra ti sou lixo
Somos só lixo
Nós não somos gente, somos lixo
Dispensável, descartável, reciclável
Mas vou parar mais um minuto p’ra pensar

Vamos a casa
Ao fim do dia
Só p’ra regenerar a mais-valia
Ganhar forças, fazer filhos
Cada um no seu caixote
E amanhã tomar o bote
Para o paraíso dos cadilhos

Quem é o lixo
Eles são o lixo do corpo e da alma
Como é que se pode ter calma
P’ra varrer este monturo
Dos escombros do futuro

Onofre
em «Resistir é vencer», de 2004

Onofre”: nome português para “on-off”

Quando o espectro de Goebbels me ensombra
e me agride com mais
Guerra mediática
E a sua matilha se maquilha
Quando essa escolha cuidada de coisas reais
ficcionadas, iguais
Sem lei nem gramática
Faz de cada Homem uma ilha
Quando vem a maré negra dessa matilha
obscena
E para sobreviver há que sair de cena
Resta só a solução de premir o botão
Quem sofre
Quem sofre
Quem sempre sofre é o Onofre

Quando a voz do Grande Irmão mostra
sempre outra cara escondendo
A paz totalitária
No negócio do seu matadouro
Quando propagandeando a janela do mundo
só abre p’ra dentro
E é sempre o cenário
Em que o sangue valoriza o ouro
Os jornalistas clonados facturam a desgraça
Nem no amor nem na dor a caravana passa
Vou vomitar e então carrego no botão
O Onofre
O Onofre
Triste poder de quem sofre

Quando p’ra tanto poder parece que já nada
podemos fazer
P’ra nos mantermos vivos
E eles tão seguros da vitória
Quando agressivos, banais, sorridentes,
coprófagos fartos de ser
Plurais digestivos
Até resistir é uma história
Só o Onofre me diz que o dono inda sou eu
Que esse terrível poder ninguém o elegeu
E logo a alma da mão carrega no botão
Onofre
Onofre
És o segredo do cofre

Eram mais de cem
em «Resistir é vencer», de 2004

Eram mais de cem
Eram mais de mil
Não os contei bem
Um milhão de lil- iputianos pr’aí

Os homens pequenos
Quando são demais
Não fazem por menos
Tornam-se fatais – vão por mim que o vivi

Como é que um freguês duma freguesia
qualquer
Vê o seu destino
Fazer o pino
Sem saber ler – nem ‘screver

Homem avisado sempre ouviu alguém dizer
Cada naufrágio
É um presságio
Do que vai a- contecer

Vá-se lá saber o que é que esta gente me quer
Este lugar
Tão singular
Ai quem me val’ – a valer

Há sempre um lugar que falta a gente conhecer
Ai se eu soubera
Como isto era
Nunca viera – aqui ter

Preso assim que nem é modo d’ alguém preso
ser
Pequenos fios
Nós corredios
Que assim me estão – a prender

Já ‘stá tecida uma teia para me tecer
Cabeça e pés
Os dedos dez
Já não me po- sso mexer

O papão do anão
em «Resistir é vencer», de 2004

O papão do anão
É o anão do próprio anão
O pior p’rò anão
É ter um irmão menor
É ter um irmão maior
É ter um irmão…

Só de costas o anão é parecido
Com o menino que pode ter sido

Os anões não se medem aos palmos
Eu sou o melhor
Eu sou o maior
Quero ser
Hei-de ser sempre o mais pequenino
Estreitinho
Maneirinho
Que há-de haver

Propriamente ser anão não custa puto
O que custa é manter esse estatuto

O papão do anão
É o anão do próprio anão
O pior p’rò anão
É ter um irmão menor
É ter um irmão maior
É ter um irmão melhor
O pior p’rò anão
É ter um irmão…

Ser anão não é coisa do corpo
É forma do espírito morto

São anões p’ra quem tudo são palmos
Eu sou o melhor
Eu sou o maior
Quero ser sempre o mais pequenino
Estreitinho
Mirradinho
Que há-de haver

Propriamente ser anão não é defeito
É gostar de ser pequeno sem proveito

O papão do anão (…)

Do que um homem é capaz
em «Resistir é vencer», de 2004

Do que um homem é capaz
As coisas que ele faz
P’ra chegar aonde quer
É capaz de dar a vida
P’ra levar de vencida
Uma razão de viver

A vida é como uma estrada
Que vai sendo traçada
Sem nunca arrepiar caminho
E quem pensa estar parado
Vai no sentido errado
A caminhar sozinho

Vejo gente cuja vida
Vai sendo consumida
Por miragens de poder
Agarrados a alguns ossos
No meio dos destroços
Do que nunca hão-de fazer

Vão poluindo o percurso
Co’ as sobras do discurso
Que lhes serviu pr’ abrir caminho
À custa das nossas utopias
Usurpam regalias
P’ra consumir sozinho

Com políticas concretas
Impõem essas metas
Que nos entram casa dentro
Como a Trilateral
Co’ a treta liberal
E as virtudes do centro

Com políticas concretas
Impõem essas metas
Que nos entram casa dentro
Como a Trilateral
Co’ a treta liberal
E as virtudes do centro

No lugar da consciência
A lei da concorrência
Pisando tudo p’lo caminho
P’ra castrar a juventude
Mascaram de virtude
O querer vencer sozinho

Ficam cínicos, brutais
Descendo cada vez mais
P’ra subir cada vez menos
Quanto mais o mal se expande
Mais acham que ser grande
É lixar os mais pequenos

Quem escolhe ser assim
Quando chegar ao fim
Vai ver que errou o seu caminho
Quando a vida é hipotecada
No fim não sobra nada
E acaba-se sozinho

Mesmo sendo os poderosos
Tão fracos e gulosos
Que precisam do poder
Mesmo havendo tanta gente
P’ra quem é indif’rente
Passar a vida a morrer

Há princípios e valores
Há sonhos e há amores
Que sempre irão abrir caminho
E quem viver abraçado
À vida que há ao lado
Não vai morrer sozinho
E quem morrer abraçado
À vida que há ao lado
Não vai viver sozinho

Canto dos torna-viagem
em «Resistir é vencer», de 2004

Foi no sulco da viagem
Já sem armas nem bagagem
Nem os brazões da equipagem
Foi ao voltar
Pátria moratória
No coração da História
Que consumiste a glória
Num jantar

Foi como se Portugal
P’ra seu bem e p’ra seu mal
Andasse em busca dum final
P’ra começar
Ávida violência
Reverso de inocência
Sal da inconsciência
Que há no mar

Império tão pequenino
De portulano caprino
Bolsos de sina e de sino
Em cada mão
Pátria imaginária
De consistência vária
Afirmação diária
Do teu não

As malas dos portugueses
São como os olhos das rezes
Que se mastigam três vezes
Em cada chão
Cândida ignorância
Grande desimportância
Os frutos da errância
Já lá vão

Ai Senhora dos Navegantes me valei
De África, do sal e do mar só eu sobrei
Foi p’ra me encontrar que amanhã já me perdi
Longe vai o tempo em que eu já não estou
aqui

Ai Senhora dos Talvez-Muitos-Mais-Sinais
Socorrei estes desperdícios coloniais
Foi na noite fria que o dia me cegou
Inda agora fui, inda agora cá não estou

Ai Senhora dos Esquecidos me lembrai
O caminho que p’ra lá vem e p’ra cá vai
Etecetra e tal, Portugal é nós no mar
Inda agora vim e estou longe de chegar

Ai Senhora dos Meus Iguais que eu subtraí
Foi pataca a mim e não foi pataca a ti
Se é tão grande a alma na palma do meu ser
Algum dia eu vou finalmente acontecer

Porque não tentar outro ponto de vista
A história dos outros, quem a contará
Se qualquer colónia sem colonialista
São os que já estavam lá

Tentemos então ver a coisa ao contrário
Do ponto de vista de quem não chegou
Pois se eu fosse um preto chamado Zé Mário
Eu não era quem eu sou
Os navegadores chegaram cá a casa
E foi tudo novo p’ra eles e p’ra mim
A cruz e a espada e os olhos em brasa
Porque me trataste assim ?

Não é culpa nossa se quem p’ra cá veio
Não se incomodou ao saber do horror
A História não olha a quem fica no meio
E o que foi é de quem for

Fado em Dó-Maior
em «Resistir é vencer», de 2004

Qualquer sítio do mundo
Tem o seu português
Ou antigo português
Ou resto de português

O resto desse resto português
É que faz a vez
Do todo português

Abismo vagabundo
Chamado Portugal
Viaduto natural
Entre a Índia e o quintal

É tão longe de Portugal a Portugal
Dói mas não faz mal
É o mal de Portugal

Por aí
Mais ou menos
O que eu vi
Já te vi
Ostrogodos sarracenos
Inda agora os conheci

Saio da casca
É já ali
Fico à rasca
Na borrasca
Portugal agora é aqui
Quem não pode, desenrasca

Arrisco quase tudo
E quase pela certa
Quando a sorte nos aperta
Perder é quase ganhar

Eu sempre que abalei à descoberta
Deixei a porta aberta
Para quem quisesse entrar

Por isso apareço
Onde menos se espera
Taberneiro de quimera
Marinheiro sempre à mão

O ir-e-vir é que me dilacera
Mas o futuro que já era
Vai pagando a redenção

Por aí
Mais ou menos
O que eu vi
Já te vi
Ostrogodos sarracenos
Inda agora os conheci
Saio da casca

É já ali
Fico à rasca
Na borrasca
Portugal agora é aqui
Quem não pode, desenrasca

Talvez eu chegue um dia
Ao fim desta viagem
Ficando aqui na paragem
A andar p’ra cá e p’ra lá

Se a camioneta nunca mais chegar
Eu não vou parar de andar
E alguma coisa virá

A vida é assim feita
Que tudo o que parece
É mesmo aquilo que acontece
Ou parece acontecer

Certo, certo, é que ao fim deste carril
Há-de haver algum um Brasil
Para eu me refazer

Por aí
Mais ou menos
O que eu vi
Já te vi
Ostrogodos sarracenos
Inda agora os conheci

Saio da casca
É já ali
Fico à rasca
Na borrasca
Portugal agora é aqui
Quem não pode, desenrasca

Pão-pão
em «Resistir é vencer», de 2004

Pé de milho
Pé da porta
Pai p’ra filho
Pão-pão

A cultura
Mesmo àgri-
Dura, dura
Pão-pão

Dois lados tem o espelho
O da mão, o do umbigo
Uma coisa é ser velho
Outra é ser antigo

Pedra a pedra
Ano a ano
Se não medra
Pão-pão

Um que nasce
Um que morre
O tempo faz-se
Pão-pão

Dois lados tem o espelho
O da paz, o do perigo
Uma coisa é ser velho
Outra é ser antigo

Gota a gota
Chove a chuva
Abarrota
Pão-pão

O rebanho
Pela encosta
Verde branco
Pão-pão

Dois lados tem o espelho
O já-está, o não-consigo
Uma coisa é ser velho
Outra é ser antigo

Castanheiro
Centenário
Chão e cheiro
Pão-pão

Pensamentos
Porque há tempo
Sedimentos
Pão-pão

Dois lados tem o espelho
O vizinho, o amigo
Uma coisa é ser velho
Outra é ser antigo

Amor gigante
em «Resistir é vencer», de 2004

Um mundo à justa medida
Nunca houve
Nem sei se haverá
Contam-se histórias da vida
Tão estranhas
Tão cruéis que sei lá
Como a de certa donzela
Que era extensamente bela

Tão grande e tão amada
Por quem – nada
Era ao pé dela

Tão grande e tão amada
E cortejada
Por quem – nada
Era ao pé dela

Não vejo poder amar-te
Na desejada proporção
Embora não sei por que arte
Caibas de pé no meu coração
Menina gigante
Que ‘stás tão distante
Aqui mesmo diante
De mim

Percorro pressurosamente
A longa rota do teu corpo
Sem conseguir, por mais que tente
Chegar ao fim-de-ti antes de morto
Menina colosso
Que eu quero e não posso
Porque é que assim troço
De mim

A menina desta história
Era grande
Muito grande até
Grandeza contraditória
Mas que pouco
Esse louco era ao pé
Pensando não ser bastante
Sentir um amor gigante

Assim cantava o dito
Pequenito
Seu amante

Mais que um canto era um grito
O do dito
Pequenito
Seu amante

Não vejo poder amar-te
Na desejada proporção
Embora não sei por que arte
Caibas de pé no meu coração
Menina gigante
Que ‘stás tão distante
Aqui mesmo diante
De mim

Percorro pressurosamente
A longa rota do teu corpo
Sem conseguir, por mais que tente
Chegar ao fim-de-ti antes de morto
Menina colosso
Que eu quero e não posso
Porque é que assim troço
De mim

As histórias de gigantes
Era dantes
Que acabavam bem
Hoje escolhe-se o amante
Consoante
Se o tamanho convém

Não vejo poder amar-te
Na desejada proporção
Embora não sei por que arte
Caibas de pé no meu coração
Menina gigante
Que ‘stás tão distante
Aqui mesmo diante
De mim

Percorro pressurosamente
A longa rota do teu corpo
Sem conseguir, por mais que tente
Chegar ao fim-de-ti antes de morto
Menina colosso
Que eu quero e não posso
Porque é que assim troço
De mim

Elogio de Caeiro
em «Resistir é vencer», de 2004

Olhar p’ra tudo como um movimento
Certo, elegante comprometimento
Com a cor, com a norma
Com a vez, com o tempo
O tempo justo para a forma
O tempo justo para dentro
E só falar para dizer

Viver unido, unido com a terra
Sem ter sequer qualquer uso p’rà guerra
Produzir, repartir
Descansar a seguir
O olhar incrível de um cavalo
Sageza, amor, tudo a habitá-lo
E ser igual dar ou receber

Cantar nitidamente a natureza
Ser cantar, ser só simples certeza
Como o vivo, o primeiro
Como a voz de Caeiro
Desconhecer o fel da fala
Ou conhecendo-o, ignorá-la
E tudo o que é, acontecer

Tudo
da autoria de José Mário Branco, escrito quando da colaboração também enquanto letrista para o disco "Do amor e dos dias" (2010), de Camané

Deitado numa núvem de não-ser
Deixei ao deus-dará tantos abraços
Afastando-me assim, sem o saber
Do ponto de chegada dos meus passos

Caminho é quanto fica da viagem
Paragem é caminho para trás
E agora só me resta por bagagem
O tanto mal que fez o tanto-faz

Julgava não ser nada, e era tudo
Pois tudo, em cada nada, acontece
Pr’ além das sombras do tempo miúdo
A grande luz do tempo permanece

Contigo, tenho agora de inventar
Essoutra núvem de uma cor diferente
Em que, à força de aprender como te amar
Eu aprenda a amar tudo e toda a gente

À força de aprender como te amar
Aprendo a amar tudo e toda a gente

Fim de Verão (À maneira d'Os Conchas) [1988]
em «Inéditos 1967-1999», de 2018
Le cafard  (À maneira de Eddy Mitchell) [1991]
em «Inéditos 1967-1999», de 2018
Quantos é que nós somos [1987]
em «Inéditos 1967-1999», de 2018

Notas: 
- Autoria partilhada com Manuela de Freitas;
- Primeira publicação em "Festas de Abril" [Associação 25 de Abril,1987]  
- Segunda publicação em "Obrigado, Otelo!" [C.E.D.R.I. O, 1989]
Alma Herida (bolero à maneira de Antonio Machin) [1999]
em «Inéditos 1967-1999», de 2018
Eu não tenho a certeza (S.d)
em «Inéditos 1967-1999», de 2018
Mudar de vida (2007)
nunca publicada

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