1964

 

No domingo de 17 de Maio de 1964 José Afonso é convidado para cantar na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense num espectáculo “de fino gosto musical”, que a sociedade leva a efeito em continuação dos festejos do seu 52º aniversário. A sessão, que o cartaz promocional garante que deliciará o público, apresenta na 1ª parte Carlos Paredes e Júlio Abreu (na verdade foi o músico Fernando Alvim, e não o ciclista Júlio Abreu, quem acompanhou Carlos Paredes, para bem do público presente) em “Variações à Guitarra” e na segunda parte o Dr. Zeca Afonso acompanhado de Rui Pato (também na realidade, dada a ausência inesperada de Rui Pato, José Afonso dispensou acompanhamento), interpretando Baladas e Canções de Coimbra. No pequeno texto de apresentação refere-se que o Dr. José Afonso “embora mantendo ainda nas suas canções os sentidos musical e interpretativo de Coimbra (…) revela-se um inovador”. Acrescenta-se ainda que “através das suas belas e estranhas baladas perpassa todo o sentido poético-trágico da sensibilidade do nosso povo”, afirmando-se convictamente que “Pela primeira vez, através deste cantor-poeta de temática eminentemente popular, a canção portuguesa encontra um caminho certo”. A vinda a Grândola foi, por diversas razões, marcante para José Afonso. Eis como ele a conta, anos mais tarde, a José Salvador: “Naquela altura enfiava-me nos buracos que me aparecessem no meio de bailes, casamentos, cantava por minha conta e risco. Respondia pelos meus actos. As coisas vão tomando corpo quando recebo um convite da Música Velha de Grândola, assinado pelo Zé da Conceição, que estava ligado ao teatro local orientado pelo Hélder Costa. (…) Fiquei brutalmente satisfeito com o convite para cantar na Música Velha. Meti-me no comboio com a Zélia e aí encontro-me com o Carlos Paredes que também tinha sido convidado. Foi a primeira vez que conheci o Paredes e então fiquei extremamente impressionado com a colectividade: num local obscuro, quase sem estruturas nenhumas, com uma biblioteca de evidentes objectivos revolucionários, uma disciplina generalizada e aceite entre todos os membros, o que revelava já uma grande consciência e maturidade políticas. Nem cheguei a conhecer quem era o director, quem era afinal o fiscal, mas tudo aquilo corria sobre rodas. Foi nestas circunstâncias que conheci o Zé da Conceição, que me impressionou assim como os seus colaboradores. O meu contacto com a Música Velha antes de ir para África foi extremamente importante (…)”.

No espectáculo José Afonso canta pela primeira vez “Cantar Alentejano”, uma canção feita na véspera e que, conforme refere numa carta aos pais, dias depois da passagem por Grândola, era “uma espécie de evocação da terra alentejana e do seu símbolo ainda vivo na lembrança do homem do povo: Catarina Eufémia, uma ceifeira de Baleizão morta pela Guarda Republicana em circunstâncias que forneceriam matéria para uma canção de gesta”. O poema da canção, para além de conter um dos inícios mais bonitos da história da música portuguesa (“Chamava-se Catarina, o Alentejo a viu nascer…”) é uma das mais fortes acusações à política da ditadura, encerrando ao mesmo tempo uma clara mensagem de esperança e um apelo à resistência (“Quem viu morrer Catarina, não perdoa a quem matou…”)

Na carta que escreve aos pais José Afonso dá conta de quanto Grândola o marcou. Afirma convictamente que “Se alguma vez tiver de deixar esta terra, é a lembrança destes homens que conheci em Grândola e noutros lugares semelhantes que me fará voltar”.

Em 21 de Maio José da Conceição recebe, também, uma carta de José Afonso. Nela o cantor junta um poema dedicado a Grândola, que é lido em sessão pública no dia 31 de Maio, na mesma sala onde foi realizado o concerto. Deste modo os presentes escutam, pela primeira vez: “Grândola Vila Morena/Terra da Fraternidade/O Povo é quem mais ordena/Dentro de ti ó cidade/Em cada esquina um amigo/Em cada rosto igualdade/Grândola Vila Morena/Terra da Fraternidade/Capital da Cortesia/Não se teme de oferecer/Quem for a Grândola um dia/Muita coisa há-de trazer”.

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