Não seremos pais incógnitos | Arturo Reguera

Se Júlio Pereira ficou surpreendido com a rapidez com que Zeca era capaz de fazer uma música, eu sou testemunha dum caso ainda mais assombroso: na primavera de 1974, como já referido atrás, Zeca veio cantar a Santiago. Zeca tinha estado pouco tempo antes uns vinte dias na cadeia de Caxias, de onde saíra com um molho de papéis cheios de poemas («como não me deixavam ler, tive que escrever…», aclarava).

Depois do concerto os três ficaram um par de dias mais porque Zeca queria compor músicas para alguns daqueles poemas, ajudado por eles e por Benedicto, que tinha gravador em casa, o que era essencial para ele, pois com a sua memória esquecia tudo o que não gravava.

Sabendo que estavam na casa do Benedicto, depois de sair do trabalho, uma tarde fui ter com eles. Trabalhavam num quarto pequeno, onde Bene tinha os seus aparelhos, e sentei-me no chão, de jeito que entre o Zeca e eu havia um banquinho onde ficara o molho de papéis de Caxias, que eu já conhecia. Comecei então a ler, e Zeca entregou-mos á mão para que os lesse mais comodamente.

Enquanto discutiam pormenores do acompanhamento de Um conforto moderno, canção alusiva à sua estadia na cadeia, que não chegaria a gravar em disco, eu, depois de ter lido três ou quatro poemas, encontrei um, Não seremos pais incógnitos, de deliciosas ressonâncias vicentinas (Quem tem farelos? pregunta Gil Vicente, Quem tem farelos tem quintas, conclui o Zeca) e, tendo acabado o que estavam trabalhando, perguntou-me: «Gostas de algum?»; mostrei-lhe o papel e respondi: «deste, muito!», e Zeca, sem ler o poema disse: «vamos fazer este, que o Arturo gosta». Leu o poema, reflectiu um minuto e começou a cantar, sem nenhuma pausa nem vacilação. Quando acabou, o Benedicto e o Fausto perguntaram-lhe que acompanhamento poderia levar, e ele respondeu: «não, esta fica assim, sem nada», e assim, a capella, exactamente com a mesma música que tinha criado em menos de três minutos, a canção ficaria gravada no disco Coro dos Tribunais.

José AbreuNão seremos pais incógnitos | Arturo Reguera