Julho de 2019 | Joaquim Vieira

”Traz outro amigo também”, disco Traz outro amigo também, José Afonso, 1970.

Escolho a canção “Traz outro amigo também”, de José Afonso, que, além de me devolver memórias muito particulares da minha juventude, sintetiza na perfeição toda a filosofia de vida e o pensamento artístico-musical deste enorme cantautor. Não tem um conteúdo diretamente político, mas a celebração que aqui se faz da amizade, do companheirismo e da solidariedade, assim como da errância por todos os pontos cardeais, foi entendida à época, por quem a ouvia, como uma mensagem subliminar de estímulo à resistência e ao combate contra a ditadura. Mesmo a ambígua frase “se alguém houver que não queira, trá-lo contigo também” foi levada
à conta de um apelo ao trabalho de persuasão, à conquista de mais simpatizantes para a causa da liberdade, nunca a uma atitude totalitária. Recordo-me de que, estando preso no forte de Caxias, possuindo um gira-discos na cela (onde estavam mais seis detidos), e apesar de estarmos proibidos de receber discos com canções de intervenção, recebi, através de cumplicidades familiares, o LP a que esta canção dá o nome, enfiado na capa de uma missa de Mozart.
Chegámos a colocar o aparelho junto à janela e a tocar o disco o mais alto possível para encorajar outros prisioneiros que pudessem assim ouvi-lo. Estava eu então muito longe de imaginar que iria buscar uma frase desta canção para título do documentário que, quase 40 anos depois, realizaria sobre José Afonso: “Maior que o Pensamento.”

Jose AbreuJulho de 2019 | Joaquim Vieira