Carta de Fernando Laranjeira quando convidado a participar no Encontro da Canção de Protesto de 2020

Oliveira de Frades, 22 de Janeiro de 2020

Como deve saber participei em múltiplas sessões de canto de intervenção antes e depois do 25 de Abril de 1974, na sequência da gravação de um disco de canções de temática social (Retalhos de Verdade, Discos Roda) e do meu encontro com o José Cid, o Zé Jorge Letria e o Carlos Alberto Moniz (e depois o Adriano, o Vitorino, e outros). Mais tarde, com o Zeca Afonso, o Sérgio Godinho, o Fanhais, o Zé Fanha, o Pedro Barroso, o Janita e o Jorge Palma, na Era Nova. E tantos outros. Foram tempos épicos em que diversos rumos políticos e pessoais foram alterados pela Revolução de Abril. O meu encontro com o Zé Mário Branco levou à criação do GAC-Vozes na Luta (estivemos em Grândola!) e a minha atividade estendeu-se até 1980. Nessa altura cheguei à conclusão de que essa minha fase de intervenção política tinha terminado. As minhas sátiras sociais tinham-se tornado num resíduo histórico, quiçá merecedor de registo documental mas cada vez mais afastado dos meus novos rumos de composição. O problema foi que o meu enquadramento nesse novo caldo de cultura se tornou cada vez mais periclitante tanto do ponto de vista económico como artístico. Em síntese, não surgiram contrapartidas suficientes para que o meu trabalho fosse divulgado.

Tornei-me um fantasma – e decidi regressar à minha terra natal – Oliveira de Frades, no distrito de Viseu.

A minha formação académica enveredara no início por um curso de Medicina que interrompi para seguir os rumos da Revolução; e agora chegava à conclusão de que o meu trabalho de intervenção cultural tinha perigosas lacunas – nem sabia explicar o que era uma bomba de neutrões… Coisas que o povo inocentemente gosta de saber. E a minha viola reivindicava uma formação orquestral que eu ainda não desenvolvera. Portanto, dediquei-me a isso. E os meus contactos com Lisboa foram foram-se esbatendo. O fundo de maneio é o navegador implacável que traça a rota no mapa da vida – e muitos outros conseguiram resistir em circunstâncias mais adversas.

E eis que ao fim de quarenta anos de estranho exílio na minha própria terra estou a preparar a divulgação dos meus trabalhos desenvolvidos – Ciência e Arte, algumas coisas já esboçadas em páginas da Internet e exíguas edições de autor. Testemunhos.

E eis Grândola – tinha que ser!…

Não é fácil responder ao vosso convite. Felizmente há muitas luas até Setembro e talvez seja possível concretizar uma presença nessa Festa tão extraordinária. Um Encontro da Canção de Protesto em Portugal é obra – dou-vos os meus parabéns! Mas é óbvio que quero participar nessa Festa!

Mesmo que seja só para soltar um grande Viva à Revolução Cultural!

Viva a Revolução Cultural!

Fernando MN Laranjeira

 

Para saber mais:
– http://penafielterranossa.blogspot.com/2015/08/fernando-laranjeira.html;
– https://www.discogs.com/pt_BR/Fernando-Laranjeira-Retalhos-De-Verdade/release/12514388;
– https://www.discogs.com/pt_BR/Fernando-Laranjeira-Marta-A-Can%C3%A7%C3%A3o/release/6526673.

José AbreuCarta de Fernando Laranjeira quando convidado a participar no Encontro da Canção de Protesto de 2020