Abril de 2019 | Soraia Simões de Andrade

‘Revolução agora !” , disco Abram Espaço, BMG, 1997

Pede-me o Observatório da Canção de Protesto que escolha uma canção que ilustre Abril, mês em que se celebra a nossa revolução.

Não poderia deixar de mencionar a sub-representação das primeiras rappers a gravar em Portugal, um dos tópicos centrais da minha tese de mestrado e do livro Os Primeiros Passos do RAP em Portugal. Fixar o (in)visível que será publicado este ano com a cancela da Editora Caleidoscópio, assim como  das demandas que Abril abriria mas que ainda estão por cumprir, como a dos direitos das mulheres.

Apesar da problemática dos direitos das mulheres ser, do ponto de vista formal, inquestionável em parte por causa da inserção de Portugal no universo político europeu e, devido a isso, à tentativa de modernização das leis portuguesas neste campo, verificamos enormes barreiras à implementação e/ou operacionalidade de uma consciência da igualdade entre sexos. Sendo isso tanto mais notório em campos socioculturais onde é clara a hegemonia masculina.

A canção de Djamal foi escrita num primeiro esboço por uma das integrantes do grupo, X-Sista (Alexandrina Matos), e trabalhada em conjunto pelas restantes (Jumping, Sweetalk, Jeremy), seria gravada em 1997 pela BMG, num contrato conseguido por Maria José Belo Marques, à altura manager do grupo.

Esta canção do grupo Djamal, composto por afrodescendentes maioritariamente, é uma vedadeira porrada política ao machismo e à misogínia presentes no meio sociocultural de fins dos anos oitenta e nos anos noventa do século XX.

A letra é de uma actualidade indiscutível. Porém, nenhuma destas rappers vive hoje da música excercendo actividades de grande incerteza e/ou precariedade. Na alusão, parca, dos meios de informação e do meio hip-hop à sua existência e ao seu pioneirismo não é inscrita a narrativa: directa, sem subterfúgios, feminista, do seu repertório gravado. Estranha esta ausência, quando até hoje, não mais se viu um guião tão letal, que questionasse de modo crú a masculinidade, apontasse o dedo à violência doméstica e à misóginia existentes até dentro de grupos racializados aos quais pertenciam. Seriam hoje politicamente incorrectas? Ou é hoje o RAP, e as tentativas de o “historiografar”, um território de sociabilidades assente numa retórica culturalista neo-hegemónica balizada por homens que escrevem e/ou, mesmo que (poucas) mulheres o façam, estabelecida por um conjunto de relações onde são homens, editores de sites e fãs deste domínio da Música Popular, quem decide o que distribuirá pela comunidade, sobretudo juvenil e jovem que os lê e escuta, sobre a história deste universo cultural no mundo on-line?

Fala-se da cor, fala-se de dinheiro
Mas, há algo passivamente aceite pelo mundo inteiro
Há séculos que se vive nesta obscuridão
De limitar a Mulher com a dor da opressão (…)

Chega de abuso, temos direito
É hora de tratar a Mulher com respeito!

O homem prossegue assim na sua saga de humilhação
Tratando a sua Maria como animal de estimação
Impôr e ordenar é a sua democracia
Não ocasionalmente mas diariamente
Ignorando constantemente como ela se sentia
Ou o que queria
Não importa a sua via não se dá por satisfeito
(…) Há alguma coisa aqui que me cheira muito mal
Vítimas de abuso e assédio sexual
Situações tratadas como se fosse habitual
É século XX? Não estou a fazer confusão?
É preciso união, pôr fim à discriminação
Racial, social e que tal sexual?
Mudar o panorama aqui em Portugal!

Jose AbreuAbril de 2019 | Soraia Simões de Andrade