em destaque música do mês dossier temático José Afonso: andarilho, poeta e cantor

Grândola, Vila Morena


José Afonso, a Música Velha e o poema Grândola, Vila Morena...

A história, tantas vezes contada e outras tantas ficcionada, é já sobejamente conhecida. Vale a pena, contudo, recordá-la: No domingo de 17 de Maio de 1964 José Afonso é convidado para cantar na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense num espetáculo que a coletividade leva a efeito em continuação dos festejos do seu 52º aniversário. A sessão em Grândola foi, por diversas razões, marcante na vida de José Afonso. Recordá-la-á, anos mais tarde, a José Salvador: Naquela altura enfiava-me nos buracos que me aparecessem no meio de bailes, casamentos, cantava por minha conta e risco. Respondia pelos meus actos. As coisas vão tomando corpo quando recebo um convite da Música Velha de Grândola, assinado pelo Zé da Conceição, que estava ligado ao teatro local orientado pelo Hélder Costa. (…) Fiquei brutalmente satisfeito com o convite para cantar na Música Velha. Meti-me no comboio com a Zélia e aí encontro-me com o Carlos Paredes que também tinha sido convidado. Foi a primeira vez que conheci o Paredes e então fiquei extremamente impressionado com a colectividade: num local obscuro, quase sem estruturas nenhumas, com uma biblioteca de evidentes objectivos revolucionários, uma disciplina generalizada e aceite entre todos os membros, o que revelava já uma grande consciência e maturidade políticas. Nem cheguei a conhecer quem era o director, quem era afinal o fiscal, mas tudo aquilo corria sobre rodas. Foi nestas circunstâncias que conheci o Zé da Conceição, que me impressionou assim como os seus colaboradores. O meu contacto com a Música Velha antes de ir para África foi extremamente importante (…).

Numa carta que escreve aos pais José Afonso dá conta de quanto a passagem por Grândola o marcou. Afirma convictamente que: Se alguma vez tiver de deixar esta terra, é a lembrança destes homens que conheci em Grândola e noutros lugares semelhantes que me fará voltar.

A 21 de Maio de 1964 José da Conceição recebe, também, uma carta de José Afonso. Nela o cantor junta um poema dedicado a Grândola, que é lido em sessão pública no dia 31 de Maio, na mesma sala onde foi realizado o espectáculo. Deste modo os presentes escutam, pela primeira vez:

Grândola Vila Morena
Terra da Fraternidade
O Povo é quem mais ordena
Dentro de ti ó cidade.

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola Vila Morena
Terra da Fraternidade.

Capital da Cortesia
Não se teme de oferecer
Quem for a Grândola um dia
Muita coisa há-de trazer.

Três anos depois a editora Nova Realidade lança um livro de poemas com o título Cantares de José Afonso, onde surge uma nova versão do poema Grândola, Vila morena, reduzido agora às duas primeiras quadras com a supressão da quadra que definia Grândola como Capital da Cortesia.

Já em 1971 é editado o livro Cantar de Novo, onde surge a terceira versão de Grândola, Vila Morena com a inclusão de uma nova terceira quadra:

À sombra de uma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola, a tua vontade.

Será esta a versão definitiva da canção Grândola, Vila Morena, que integra o álbum Cantigas do Maio editado nesse ano. É José Mário Branco que se responsabiliza pelos arranjos musicais da canção e que, atendendo à sua estrutura alentejana, sugere a José Afonso que a cante repetindo cada quadra por ordem inversa dos versos, como é uso no Alentejo.

À meia-noite e vinte do dia 25 de Abril, os ouvintes do programa Limite, da Rádio Renascença, ouvem Leite de Vasconcelos, num registo pré-gravado, declamar a primeira quadra da canção Grândola, Vila Morena. Em seguida o som inconfundível de passos em marcha e da voz de José Afonso enche a noite, dando o sinal esperado para a saída dos quartéis das tropas que irão derrubar a ditadura. É deste modo que Grândola, vila Morena, a canção, se transforma na senha de um movimento que devolve a Portugal a liberdade e aos portugueses a dignidade e a possibilidade de serem, uma vez mais, senhores do seu destino.

Grândola, vila Morena é um hino de liberdade e fraternidade, património de todos os que dela legitimamente se apropriam, e será cada vez mais no futuro, património imaterial da humanidade.



Cartaz do concerto que juntou na Música Velha José Afonso, Carlos Paredes, Rui Pato e Fernando Alvim