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Música do mês


A MORTE SAIU À RUA de José Afonso

Ouvi-a pela primeira vez – e muitas vezes mais, por esses dias – logo a seguir a abril de 74. Tempos maniqueístas esses, e portanto era canção que afinava de imediato com os nossos sentidos colocados alerta: os inimigos do povo e da liberdade ainda andavam por ali; era preciso neutralizá-los, vencê-los, até mesmo eliminá-los. A canção prometia vingança, aliás, mas era triste, uma espécie de elegia guerreira. Eu gostava realmente daquela toada dorida mas de peito aberto, sem nada daquela coisa lacrimosa do fado da desgraçadinha — e para mim, então, todos os fados eram da desgraçadinha —, antes já do que mais tarde achei no Hemingway, “um homem pode ser destruído, mas não derrotado”.

Falemos então da letra, que uma canção é, antes de mais, melodia e palavras. Para lá do primeiro verso, de grande efeito dramático, acentuado por aquele “um dia assim”, que indiciava que podia acontecer num dia qualquer — a morte não avisa —, havia outros três que me impressionavam particularmente, não tanto pelo seu significado, mas pela sua sonoridade perfeita, o que denota a maestria de José Afonso no ofício de aparelhar canções. E eram eles: “uma gota rubra sobre a calçada cai”, “o vento que dá nas canas do canavial” (apontamento naturalista que calava fundo no meu coração) e “e o som da bigorna como um clarim do céu”, uma imagem lírica simplesmente espectacular.

Em contrapartida, havia outros dois que me deixavam intrigado: “/…/ a foice de uma ceifeira de Portugal” e “à lei assassina à morte que te matou”. O primeiro porque, atendendo ao facto de o patriotismo nunca ter sido o meu forte, de tal modo que em relação ao nosso país eu me sentia então como se deviam sentir também os refugiados das nossas ex-colónias, quando se depararam com a tacanhez da pátria-mãe (por comparação com os grandes espaços abertos dos países africanos de onde provinham, mas também perante a tacanhez mental que ainda nos caracteriza, de alguma forma), e por isso dei por mim surpreendido por me rever na figura dessa foice e dessa ceifeira, sem quaisquer laivos de pitoresco na minha apreciação. O segundo, enfim, por um equívoco: eu sempre entendera a preposição em “à morte” como artigo, ou seja, “a morte”, e o verso assim não fazia sentido – aliás, mesmo atendendo à sua forma correcta não era fácil ou imediata a sua leitura, dado que entrosava com o primeiro dessa quadra (é o 3º verso) e não com o que o imediatamente o precedia.

Há algo que não aprecie assim tanto nesta canção? Sim —o último verso: “e em todas florirão rosas de uma nação”. Sempre me pareceu um remate já ao tempo datado e até mesmo algo retrógrado – lá está, aquela coisa da nação, da pátria, que me fazia urticária, como entretanto me passaram a fazer as fronteiras, esse tribalismo feito de territorial pissings de que continuamos ainda reféns: se há sentimento de pertença que nos faça falta, então pertencer à espécie humana deveria bastar. Mas pronto, entendo o apelo a esse tipo de valores, nas circunstâncias que então se viviam.

Para concluir, ainda hoje, quando a oiço, esta canção me provoca arrepios e dá-me vontade de sair para a rua, de fazer qualquer coisa por este povo tão cansado e tão sofrido. E, se isto não vale, então não sei o que valerá.

Joaquim Anacleto



letra da canção



ARQUIVO
  • Março de 2016: A MORTE SAIU À RUA de José Afonso, por Joaquim Anacleto (secretariado do OCP);